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Jornal

O estivador de Arthur Miller

01/02/2019 04:05:04

Muitas décadas se passaram desde que o dramaturgo estadunidense Arthur Miller (1915 - 2005) escreveu a peça Um Panorama Visto da Ponte (1955), na qual aborda o drama de uma família de imigrantes italianos instalada no porto da Nova York do pós-Guerra. Nesse período, a carga e descarga de navios, atividade em que trabalha o protagonista Eddie Carbone (Rodrigo Lombardi), foi parcialmente automatizada, mas as condições de trabalho, não só na estiva, continuam sendo um sério problema social em várias atividades onde o esforço muscular ainda desempenha um papel relevante. Permanece atual também o empobrecimento das relações humanas.

Esse espetáculo, que vi domingo passado, 27, no Teatro RioMar Fortaleza, combina temas presentes na vida familiar, na insegurança econômica, na instabilidade dos imigrantes e nos conflitos morais que estão além das fronteiras do certo e do errado, do bem e do mal, do justo e do injusto. A montagem do diretor paulista Zé Henrique de Paula tem boa fluidez em cenário de contêineres como representação das docas e dos espaços de convivência.

O advogado Alfiere (Sérgio Mamberti) é o narrador que, na medida certa, chama a plateia à profundeza do conflito por que passa o seu cliente estivador, que canaliza toda a energia e sanidade a uma escuridão mental provocada por idealizações frustradas, ameaças reais e imaginárias, rejeição ao seu ímpeto protetor e vulnerabilidade diante do teste de amorosidade e desapego na relação com a sobrinha Catherine (Gabriella Potye), criada por ele e pela mulher Beatrice (Patrícia Pichamone). O problema começa quando a menina cresce, momento em que a família acolhe os primos Marco (Antônio Salvador) e Rodolfo (Bernardo Bibancos), na condição de imigrantes ilegais.

Rodolfo e Catherine se enamoram, e Eddie reage com sintomas de cuidados e ciúmes, em uma situação com a qual não sabe lidar. E vai adoecendo com a onipresença da desconfiança na intenção de Rodolfo, que pode estar querendo casar apenas para sair do sufoco da ilegalidade. O estivador invoca para si um senso de justiça apoiado no seu esforço de ter trabalhado tanto preparando a sobrinha órfã para uma vida melhor do que a deles, e vê o resultado desse empenho colocado em risco. Tenta convencer Catherine da sua hipótese, mas ela recusa seguir sua orientação.

Eddie não percebe, ou não aceita, que a sobrinha cresceu. A garota também resiste ao crescimento, apesar da atração por Rodolfo desafiá-la para a vida adulta. Beatrice sente-se preterida pelo marido. Mudam-se os humores. Os distúrbios de afetividade degradam as relações em confrontos que geram silêncios; silêncios que viram mágoas e mágoas que se tornam agressões. Toda a emoção do estivador fica presa à estrutura rígida do seu padrão de compreensão da realidade; uma realidade de estrangeiro em terra estranha, de trabalhador em tempo de escassez de trabalho, de temor pela perseguição dos ilegais e pelo abalo da estrutura familiar.

Com os nervos em frangalhos, ele perde o acesso a si mesmo e, atropelado pela irracionalidade, delata os próprios hóspedes. Entre o que poderia ser verdade ou mentira ele fica com os pensamentos que imagina serem reais. Sai da solidariedade para a hostilidade, em uma atitude condenada pelos moradores, e paga o destempero com a própria vida. Um Panorama Visto da Ponte é teatro realista, com enredo poderoso, elenco muito bom e um alerta para a oscilação da moral em mundos desencantados.

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