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Jornal

Sossego da memória

| Maracanaú | Casa onde viveu o escritor e farmacêutico Rodolfo Teófilo hoje abriga uma orquestra, mas ainda tem futuro incerto mais de uma década após tombamento

01/02/2019 09:55:25
Fortaleza, CE, Brasil, 15-01-2019: Janderson Carlos e Francisco Anderson. Casa de Rodolfo Teófilo abriga Orquestra Pajuçara. (Foto: Mateus Dantas / O POVO)
Fortaleza, CE, Brasil, 15-01-2019: Janderson Carlos e Francisco Anderson. Casa de Rodolfo Teófilo abriga Orquestra Pajuçara. (Foto: Mateus Dantas / O POVO)

Sem manutenção regular, a casa onde viveu Rodolfo Teófilo suspira com a pressa da hora e a história que suas paredes contam. A tintura descasca e o telhado de carnaúba roliça - ainda da época da construção, em fins do século XIX - já chama atenção pela perceptível fragilidade. Como vestígios, permanecem as modestas janelas e portas azuis, além das grossas paredes de alvenaria, erguidas numa elevação de terra apelidada por Teófilo de "Alto da Bonança". Na rua Petrônio Portela, o sossegado alpendre se destaca em meio às residências modernas do
bairro Pajuçara.

Árvores frutíferas de vários tipos crescem no terreno ao redor da casa onde o escritor e farmacêutico cearense escreveu alguns dos seus 28 livros. A casa fica no município de Maracanaú, a 22,5 km de Fortaleza. Por lá, o silêncio às vezes é interrompido pelos canto dos pássaros, e outras pela chegada inesperada de alguns visitantes.

A memória do escritor, no entanto, permanece uma incógnita para os moradores da Pajuçara. "Não sei bem quem foi Rodolfo Teófilo, mas sei que foi importante. Sempre aparece um pessoal na casa. Lá é tipo um museu", relata Luciana Alves, 34, comerciante que mora próximo à casa do escritor. Jeferson de Sousa, 22, relata já ter visitado a casa uma vez. "Tem pessoas que vão lá, tiram foto. Mas não tem muito movimento, só quando aparece o pessoal da igreja que se reúne por lá", conta.

O tombamento da casa foi sancionado em abril de 2007, pelo então prefeito de Maracanaú Roberto Pessoa. Dois anos antes do tombamento definitivo, a edificação já apresentava vários sinais de depredação e, em 2005, passou por uma reforma que durou sete meses, orçada em R$ 150 mil, de acordo com a Secretaria de Cultura e Turismo do município. As obras incluíram recuperação das paredes, da calçada no entorno, além de uma nova pintura. Desde então, o local não passou por outra reforma de igual porte, apenas por pequenas manutenções.

"Um novo projeto foi desenvolvido há dois anos, visando ampliar a acessibilidade do local e transformar a casa em um museu. Com os cortes no orçamento municipal, não foi possível iniciar a licitação em 2017", relata o Secretário de Cultura e Turismo do Município, Gerson Cecchini. O projeto, criado ainda na gestão anterior, previa a criação de um acervo de exposição de objetos de Rodolfo Teófilo (além de uma biblioteca e um espaço para atividades artístico-culturais). Quase dez anos depois, o plano permanece cercado de incertezas.

Gerson projeta ainda que o orçamento de 2019 não será capaz de alcançar a receita exigida pelo novo projeto. "Vamos aguardar uma nova reunião de junho, juntamente com Controladoria Geral do Município e a Secretaria de Finanças. Só depois é que poderemos abrir uma licitação, para uma reforma no segundo semestre", explica.

Uma vistoria na casa foi realizada em novembro do ano passado, quando foram identificados problemas no telhado de alguns dos oito cômodos da residência. De acordo com o titular da pasta, os engenheiros responsáveis não identificaram outros "grandes problemas" na estrutura da edificação.

Atualmente, um vigilante realiza a segurança noturna da casa; para receber os visitantes durante o dia, permanecem no local duas funcionárias da Prefeitura. Segundo apuração realizada pelo O POVO, a casa já sofreu pelo menos três invasões - a maior parte no período da noite - sendo a mais recente delas no fim do ano passado, deixando algumas portas quebradas e telhado danificado. Algumas colunas da fachada próxima à calçada tiveram as correntes quebradas e arrancadas. Segundo o secretário Gerson Cecchini, a segurança do local está entre as prioridades do projeto de reforma.

Ivig Freitas