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Jornal

Travessa da Espera

Em 2006 desbravei aldeias ao norte de Portugal em busca de histórias de vida e amor. Fui à região do Minho realizar uma pesquisa sobre a belíssima tradição dos lenços dos namorados, as escritas românticas e apaixonadas das moças minhotas. Cheguei a esse tema pensando na minha avó, bordadeira e artesã, que me criou nos corredores do antigo Mercado Central de Fortaleza lidando com rendas e bordados, essas metáforas perfeitas da vida.

Procurando as origens da arte de bordar, sobre como vieram parar nos dedos ágeis da minha avó, descobri a tradição dos lenços dos namorados, repleta de significados. Organizei uma viagem de pesquisa, contando com a sorte como guia. Foi ela que me levou ao abraço da dona Maria do Carmo, uma professora aposentada de Aboim da Nóbrega que recrutava jovens para entrar de casa em casa, nas montanhas, perguntando se por um acaso alguém teria um lenço antigo guardado nos baús. Dona Carminho tinha a missão de resgatar o amor.

As narrativas contam que as moças bordavam ao luar pensando nos rapazes de quem elas gostavam e observavam de longe, imaginando um amor impossível. Desenhavam com a linha versinhos simples sobre seus sentimentos, em galaico-português. Junto aos versos bordavam passarinhos, corações, flores, chaves, envelopes. Depois de concluir o bordado elas entregavam o lencinho ao pretendente após a missa do domingo. Teriam de esperar até o domingo seguinte para saber a resposta. Se o lenço fosse usado no bolso da camisa ou da calça, o pedido de namoro estaria aceito.

Durante a pesquisa me contaram a história de uma senhora que bordou o lenço para um rapaz. Ele não esperou uma semana inteira para dizer que sim, que também a amava. Confirmou no mesmo dia. Mas havia uma condição para o amor dar certo: ela precisaria aguardar. Ele estava de viagem marcada para o Rio de Janeiro, onde iria trabalhar com o tio em uma padaria. Seria algo por um tempo, alguns meses para juntar algum dinheiro e voltar.

Ela jurou que esperaria. Ele jurou que voltaria. E voltou. Dezessete anos depois.

Descobri que a senhora ainda estava viva, que morava em uma aldeia de sete casas de granito bruto no alto da Serra Amarela. Dona Maria do Carmo arranjou um transporte e fomos até lá. Subíamos tanto ao redor da serra que parecia uma viagem para o céu.

Como Penélope esperando Ulisses, a senhora bordou todo o seu enxoval. Abriu um imenso baú e me mostrou os lençóis, fronhas, toalhas, tudo com os mesmos desenhos do lenço. Sempre sorrindo. Em algum lugar do seu coração ela soube que valeria a pena, que seriam felizes. E foram, ela me disse, seus olhos azuis contrastando com o preto da viuvez.

Desbravei aldeias portuguesas para saber dos bordados. Aprendi sobre o amor e a paciência. Tantos anos depois, bordei pela primeira vez um pequeno lenço dos namorados como experiência para a escrita do meu novo romance. Bordar é uma forma de entender que as coisas importantes da vida precisam de tempo para acontecer. A Travessa da Espera é o lugar onde moram os corações fortes e pacientes.

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