PUBLICIDADE
Jornal

O que explica a recusa em reconhecer a transexualidade?

|Comportamento|

É inacreditável que, em pleno 2019, a transexualidade ainda enfrente tanta resistência em determinados setores no Brasil. Inacreditável, mas assustadoramente compreensível, tendo em vista a onda conservadora que avança sobre o País.

No início desta semana, às vésperas do Dia Nacional da Visibilidade Trans, comemorado em 29 de janeiro, o governador de Santa Catarina, Carlos Moisés da Silva (PSL), vetou um projeto de lei aprovado pelo Legislativo que dispunha "sobre o uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas travestis e transexuais no âmbito da administração pública de Santa Catarina".

Trocando em miúdos, o governador vetou que travestis e transexuais pudessem usar nome social em fichas de cadastro, formulários, prontuários, registros escolares e outros documentos para atendimento de serviços públicos prestados pelo estado.

O veto é um retrocesso enorme. Principalmente se levarmos em consideração a decisão tomada por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em março de 2018, que permitiu que transexuais e travestis possam alterar seu nome no registro civil sem a necessidade de realização de cirurgia de mudança de sexo. Mais ainda se lembrarmos, que desde abril de 2016, em ato assinado pela presidente Dilma Rousseff (PT), travestis e transexuais podem usar nome social no serviço público federal.

A recusa em reconhecer a dignidade de pessoas trans e travestis transborda para além de autoridades representantes da nova extrema direita e parece ter contaminado até segmentos costumeiramente pouco afeitos a este tipo de manifestação.

A querela desta semana envolvendo o cantor Nego do Borel, Luisa Marilac e a personagem Mamma Bruschetta é uma boa amostra do potencial corrosivo deste tipo de atitude. Mas não é uma novidade em si.

No ano que passou, a cantora Pabllo Vittar e ator Thammy Miranda, então no centro dos holofotes, foram sistematicamente vítimas de piadas infames, que em comum tinham o fato de troçarem sobre a sua identidade de gênero e a negação em admiti-la como feminino e a ele como masculino.

Alguma explicação há de haver, à luz da Psicanálise, para tamanha rejeição à natureza do outro e a como ele se relaciona com sua própria identidade e desejos. Mas sigo daqui acreditando que esse comportamento diz mais da disfunção de quem o pratica do que da quem dele é vítima.

TAGS