PUBLICIDADE
Jornal

O cinema e a palavra

|adaptações| Literatura modernista de autores como Cecília Meireles e Dalton Trevisan serviu de material para a filmografia de Joaquim Pedro de Andrade, cineasta do Cinema Novo

26/01/2019 14:48:38
O PADRE E A MOÇA
O PADRE E A MOÇA

Quando Macunaíma (1969) estreou no Brasil, o herói controverso do escritor Mário de Andrade encontrou, nos anos 1970, uma versão satírica e amargamente irônica de si sob os olhos do cineasta Joaquim Pedro de Andrade. Um dos nomes do Cinema Novo, Joaquim dedicou quase toda a sua filmografia a pensar o Brasil e sua gente a partir de suas contradições. Recorre, para isso, ao esforço modernista da literatura e transforma, em expressão audiovisual, seu diálogo inventivo com a palavra escrita dos autores modernos.

Com cinco adaptações literárias em longa-metragem, Joaquim Pedro é um dos diretores brasileiros que mais recorreram à literatura em sua filmografia. Sua estreia na direção, inclusive, foi com um documentário sobre seu amigo e padrinho, o poeta Manuel Bandeira: O Poeta do Castelo (1959). Sete anos mais tarde, ele dirigiu seu primeiro longa-metragem, O Padre e a Moça (1966), livre adaptação de um poema de Drummond. "As adaptações de Joaquim quase nunca demonstram rigor e fidelidade aos textos literários, porque ele não procurou roteiros na literatura, mas a reinventou ao seu modo", explica Isadora Rodrigues, pesquisadora de Comunicação e Cinema da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Característico do trabalho audiovisual do cineasta mineiro, o encontro entre o cinema e as letras teve, no Brasil, momento marcante com a expansão das ideias do Cinema Novo, movimento do qual fez parte. E, como lembra Isadora, "a preocupação em compreender a formação do Brasil a partir de suas contradições era algo que a literatura modernista dos anos 1930 e 40 já tinha começado a buscar". Mesmo quando os textos literários aparecem em roteiros completamente reinventados pela inserção dos temas modernistas no contexto da cultura pop e do mercado de consumo, por exemplo, "o diálogo constante dos cineastas com a produção literária moderna fortaleceram essa relação marcante", finaliza a pesquisadora.

Depois de filmar Macunaíma (1969), Joaquim Pedro mergulhou na atmosfera poética de Minas Gerais, estendendo seu olhar sobre as cidades históricas em Os inconfidentes (1972). Focando a estrutura narrativa nos bastidores da conspiração, o filme retoma os poetas Cláudio Manuel da Costa, Alvarenga Peixoto e Tomás Antônio Gonzaga (poetas brasileiros da corrente literária do Arcadismo), enquanto personagens. Movidos pelo ideal de equilíbrio, o movimento procurava restabelecer a harmonia e a simplicidade na literatura. Cheio de declamações poéticas, diálogos políticos fortes e muitas doses de lirismo, o filme foi inspirado no livro O romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles.

Após passar pela poesia, o cineasta também percorreu contos de Dalton Trevisan, extraídos de Guerra conjugal (1973), Novelas nada exemplares (1959), dentre outros textos do autor. Um dos contos, censurado em 1979, inspirou o curta Vereda tropical (1977), protagonizado por Carlos Cavalcanti. Como lembra Isadora Rodrigues, "os cineastas do movimento tinham contato com a elite intelectual e a literatura de seu tempo, e essa convivência desembocou, direta ou indiretamente, em uma filmografia repleta de influências da literatura".

É de Joaquim também a direção de O homem do Pau-Brasil, comédia fantástica sobre o escritor Oswald de Andrade, ícone do modernismo brasileiro e autor do famoso Manifesto da Poesia Pau-Brasil. Publicado em 1924, o texto defendia a absorção crítica da modernidade europeia para a valorização da arte brasileira. O filme foi o último executado por Joaquim que, antes de morrer, em 1988, já havia finalizado outros quatro.

Ivig Freitas