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Flash Delirium

|VENTO SOLAR| Reunindo obras de quatro fotógrafos, exposição levanta reflexão sobre limites entre fato e ficção

16/07/2019 03:13:45
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PAG4 - Nobukho Nqaba_Untitled02_Umaskhenkethe Likhaya Lam_2012__giclee print on hahnemule (Foto: Nobukho Nqaba)

O universo fotográfico da eslovena Vanja Bucan é marcado pelas interseções entre homem e natureza. Mas não se trata da interferência pragmática documentada por jornais e portais de notícias - ou pelo menos, não é essa a intervenção que ocupa o primeiro plano de suas imagens. Nas fotografias de Vanja, aparecem mãos, pés e cabeças que rasgam ao meio os pôsteres de plantas, folhas e galhos, em uma comunicação que é violenta e íntima em medidas parecidas.

Já a sul-africana Nobukho Nqaba espalha em suas imagens os padrões de estampas de suas unomgcanas, grandes bolsas de viagem carregadas geralmente por imigrantes em trânsito. As fotografias que produz e protagoniza sugerem essa realidade sem necessariamente explicitá-las. A mensagem é subliminar: as padronagens não estão só na montanha de bolsas que soterram a personagem, mas também em seus sapatos, em suas paredes, nas camas, nas mesas de cabeceira e nas bancadas
de cozinha.

Dissipar os limites entre real e metáfora , entre fato e ficção, é a proposta da exposição Vento solar, que tem curadoria da portuguesa Angela Berlinde e se ancora na afirmação de que "a fotografia, desde o início, nunca foi inocente". São quatro fotógrafos de diferentes nacionalidades - além de Vanja e Nobukho, o espanhol Joan Fontcuberta e a polonesa Weronika Gesiscka - que reúnem em sua produção a intenção de questionar a relação entre o que se vê o que se acredita.

"A exposição dá a conhecer a fotografia a partir da simulação, ficção ou encenação. Trata-se de uma exposição ao ar livre, concebida sob a luz intensa do Ceará, e se apresenta como uma caixa de ferramentas de análise da imagem e dos seus jogos ilusórios", explica Berlinde. A experimentação se prestaria, segundo a curadora, a refletir sobre a confiabilidade do visual em um contexto de turbulência política e social no País, assim como sobre as implicações das chamadas pós-verdades "com as quais somos forçados a lidar hoje e que podem ser confusas e enganosas".

Os universos fantásticos criados pelos quatro fotógrafos falam ainda do poder da imagem, convidando o público à reflexão. "Eles revelam como a fotografia pode cativar e iludir, atirando o espectador para os desafios de olhar criticamente para o mundo, balanço tão difícil de fazer nos dias de hoje", conclui a curadora, que ainda coloca a experimentação desses artistas na elaboração de narrativas culturais contemporâneas que são fundamentais "para a construção de novas ordens e estruturas artísticas". (Jáder Santana)

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