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Interior

24/04/2019 05:28:37

Uma coisa bonita é quando alguém pergunta: qual é o seu interior? Como se houvesse uma cidade aonde pudéssemos voltar sempre que precisássemos, um lugar de pouso, descanso e rememória que preservasse seus marcos apesar de todo o tempo já gasto.

A intenção não é tanto descobrir alguma qualidade pessoal ou radiografar a natureza morfológica de nossos órgãos vitais, se de fato estão ali guardadinhos dentro da torácica. Pulmões, fígado e coração. Um interior inacessível perfeitamente mantido a distância dos bárbaros.

Quem pergunta sobre o interior interroga a origem, o ponto de partida, de onde a gente veio e para onde volta sempre que precisa fazer o avesso do caminho, varrendo a contrapelo uma história, que já não é mais a mesma história, mas outra. Porque toda volta é também uma ida e a ida, uma volta.

Não sei se embaralho tudo, se dou por clara a obscuridade ou se me fio nas bordas das coisas ciente de que nunca têm bordas. As coisas são como abismos, e quase sempre escorregamos para dentro delas, como a Alice na toca do coelho.

Basta dizer, e elas perdem os contornos, ganham a densidade mágica do milagre. No fundo, quando alguém quer saber sobre o interior, está na verdade procurando por um lugar fantástico, uma latitude inexistente que habita a invenção.

Nem por isso perde beleza. Por uma razão: trata-se de entender de onde você vem, real ou imaginariamente. Parte da certeza de que você é daqui, de Fortaleza ou seja lá de que lugar for, mas chegou à cidade vindo de outra, perto ou distante, e dela carrega algo: uma lembrança, uma experiência, um conjunto sensorial diverso ao qual recorre quando sente a necessidade de entender do que é feito.

A maneira como é formulada, portanto, já pressupõe que, embora viva nesta geografia, o seu interior é outro - é para ele que você retorna, mesmo quando não o visita com frequência. A essa paisagem afetiva e geográfica. O seu lugar de origem, seja a própria, seja a familiar. Se você não tem, seus pais ou avós devem ter ou alguém antes deles.

Quando criança, os amigos mencionavam com frequência esse interior do qual regressavam depois das férias cheios de histórias de banhos de açude e galopes em cavalos por terreiros a perder de vista, estripulias que eu acompanhava como causos.

As minhas eram outras, todas da cidade, nenhuma povoada por essas figuras. Não tinha raiz no alheio, os dois pés fincados na terra aérea da cidade. Não podia me deslocar, tampouco retornar. Estava enraizado, e, como raiz afrouxasse com o tempo, fui entendendo que precisava inventar minha própria errância.

Mais velho foi que descobri que todos descendemos - de algo ou alguém, de um lugar, de um sentimento. E que nossa trajetória não apaga as marcas, mesmo quando muito empoeiradas ou perdidas.

Pelo contrário. A todo momento reafirmamos essas pegadas, reparando um caminho cujas rotas não conhecíamos, rasurando o desenho para esboçar uma nova forma.

É isso o interior. O lugar aonde se vai para viver de novo, viver o enredo de outra história, descobrir sob a tinta descascada da parede as camadas de outro tempo.

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