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Experimento e tentativa

22/04/2019 23:55:19
O Outro Lado do Vento
O Outro Lado do Vento (Foto: divulgação)

São curiosos os tempos que permitem que um filme inacabado do cineasta Orson Welles, falecido em 1985, tenha tido sua finalização e distribuição garantidas pelo serviço de streaming Netflix em 2018. Desde o começo do mês, O Outro Lado do Vento, obra que o diretor começou a filmar em 1970, está disponível no catálogo da plataforma online. Junto dela, a Netflix produziu também Serei Amado Quando Morrer, documentário sobre o tortuoso processo de produção do longa. Com paralelos entre ficção e realidade, o filme reconta a história do último trabalho do diretor Jake Hannaford (interpretado pelo ator e também diretor John Huston), cineasta veterano que tem dificuldades de concluir o projeto, marcado por problemas de produção.

Welles é considerado um dos mais importantes diretores da história, tendo estreado no cinema em 1941 com Cidadão Kane. Considerado por muitos o "melhor filme" já feito - encabeçando, por exemplo, a prestigiada lista da revista britânica Sight & Sound por cinco décadas até dar espaço para Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock, em 2012 -, o longa inovou estética, técnica e narrativamente. Tanto impacto em uma obra de estreia foi, ao mesmo tempo, bênção e maldição: os lançamentos posteriores do cineasta passaram a ser cercados por expectativas e comparações. À sombra de tamanho sucesso precoce, a carreira de Welles acabou marcada por uma série de problemas relacionados à inadequação do autor com o cinema feito em Hollywood, especialmente financeiramente.

No final dos anos 1950, o diretor acabou se mudando para a Europa, onde filmou novos trabalhos e, invariavelmente, se distanciou da indústria norte-americana. O retorno de Welles à terra natal se deu justamente com O Outro Lado do Vento, cuja produção foi problemática, marcada por filmagens que se estenderam ao longo dos anos 1970, um processo de edição trabalhoso e inacabado e uma disputa judicial pelos direitos do filme. O quão biográficos são ou não os elementos da obra é controverso afirmar, mas a metalinguagem é constante.

O longa se constrói a partir de imagens captadas na trama por diferentes câmeras que acompanham os processos da produção de Hannaford - são documentaristas, equipes de programas de televisão, estudantes de cinema; há, ainda, jornalistas e críticos convidados. Nessas presenças, há muito de comentário satírico, exagerado, sobre a indústria e a relação dos autores com as outras instâncias.

O ritmo do longa é rápido, entrecortado, enérgico, variando entre os bastidores do processo registrado e longas sequências da obra fictícia de Hannaford, que emula uma ideia de cinema europeu dos anos 1960 - não por acaso, há citações ao italiano Michelangelo Antonioni, por exemplo. Tanto o filme quanto o filme dentro do filme são exemplares que brincam com linguagens, estéticas, texturas, sons e possibilidades. Subjetiva e objetivamente, O Outro Lado do Vento é um filme de experimento e tentativa. 

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João Gabriel Tréz