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Jornal
VERSÃO IMPRESSA

Agenda para um longo (?) cotidiano

20/04/2019 09:23:49

A Bruno Braga

Acordar e sentir o sol da manhã na pele, o vento vadio açoitando as árvores. Ler o jornal de papel (não é mais pleonasmo) sujando as pontas dos dedos com a tinta das notícias. Continuar respirando, mesmo que às vezes falte ar e o coração queira sair pela boca. Tentar fazer o melhor e resolver problemas de forma simples. Trabalhar para transformar a realidade, já que, como arquiteto, não há outro caminho a tomar. Manter a calma e ter paciência, ainda que em face a tanta burrice, arrogância e safadeza. Conservar a fé no ser humano, apesar das muitas decepções recentes. Assistir ao desfile da cidade enquanto passo por ela de ônibus ou táxi, diversão antiga. Ouvir a conversa dos outros e, sem fuxico, dela fazer arte. Voltar a desenhar e a pintar. Claro, resistir, sempre.

Regar com o parceiro amigo o fértil jardim musical para que dele brotem novas flores/canções. Repassar, construir e estender o conhecimento de maneira crítica e propositiva, como sói ser na minha profissão. Melhorar a alimentação, beber mais água, comer mais frutas e verduras. Fazer a habitual ronda dos bares, talvez com menor frequência, já que a máquina não é mais tão mortífera assim. Escrever mais um livro, talvez um romance, com um protagonista idiota que se elege presidente com o voto de idiotas piores do que ele. Amar e cuidar da minha mulher e das minhas filhas. Ir aos sábados à casa da Tia Santa para rir e chorar. Tornar a ouvir música, muita música, como antigamente. A poesia é necessária, principalmente em tempos difíceis. Rezar. Claro, resistir, sempre.

Observar e participar. Ser de pedra sendo pedra, mesmo terno. Ajudar a quem precisar, que é para isso que somos colocados no mundo. Caminhar, passear, correr não, que correr cansa. Ir soltando, de quando em vez, meus textos sobre a baixa gastronomia alencarina (parece que o povo gosta). Considerar se devo ainda permanecer nas redes sociais. Comprar um novo celular, mas não um celular novo. Refinar a ironia, o sarcasmo e a acidez na ponta da pena. Seguir cometendo minhas crônicas até quando me quiserem e, se não me quiserem mais, continuar cometendo-as. Renovar o guarda-roupa com as mesmíssimas peças. Marcar colado o Alvinegro Famoso da Ilha das Cobras, quem sabe retornar aos estádios. Barba, cavanhaque ou cara lisa? Claro, resistir, sempre.

Advertir os incautos com as mesmas palavras de William Carlos Williams, guru do uivante Allen Ginsberg: "Senhoras, levantem as barras de suas saias que vamos atravessar o inferno". Não guardar rancor nem retaliar, mas anotar os nomes e sobrenomes no caderninho com letrinha redondinha, como manda o figurino. Tentar compreender as doidices desta Loura Libertária e Reacionária do Sol. Reler os clássicos, pois é onde se encontra o ouro de mina, o alimento da alma. Não se deixar abater pelas shit news, substitutas das odiosas fake news. Construir cada dia como uma pequena vitória, ainda que à custa do escárnio dos derrotados que posam de vencedores. Aliás, nada como um dia atrás do outro com uma noite pelo meio. Viver. Claro, resistir, sempre. Sempre!

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