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e visceral

|ARTE E REFLEXÃO| Destaque na exposição Nossas Janelas, as "Janelas Sociais" de Descartes Gadelha são a fratura exposta da desigualdade e discriminações na sociedade cearense

16/07/2019 17:38:15
CRUCIFICADA DO AMOR foi uma das telas e das histórias apresentadas por Descartes Gadelha à equipe do V&A. Trabalho está exposto na mostra do artista em cartaz na Casa do Barão de Camocim
CRUCIFICADA DO AMOR foi uma das telas e das histórias apresentadas por Descartes Gadelha à equipe do V&A. Trabalho está exposto na mostra do artista em cartaz na Casa do Barão de Camocim (Foto: Alex Gomes/ Especial para O POVO)

"Santo, pra mim, é toda e qualquer pessoa que tem fogo de amor no coração." Com essas palavras, o múltiplo artista cearense Descartes Gadelha passeia pelas trajetórias de vidas retratadas em suas obras: bailarinos da noite, prostitutas do Centro, pessoas em situação de rua, entre outros sujeitos socialmente marginalizados.

Catadores do Jangurussu é um dos trabalhos mais viscerais de Descartes. A série retrata o cotidiano de catadores de resíduos do chamado Lixão do Jangurussu, aterro sanitário desativado em 1998. O contato do artista com essa realidade se deu por acaso, mas o impacto de tamanha desigualdade crua perdura até hoje em suas pinturas. "Nunca queira amar um artista. Era 1978, eu ia fazer um quadro para minha namorada e aí peguei o material, coloquei dentro do carro: tinta, pincel, paninho para as mãos, querosene, tudo. Peguei a BR 116, 'vou pintar a paisagem mais linda para o meu amor'. Cheguei em um determinado ponto, perto de Messejana, entrei à direita e escolhi a paisagem Passou um menino com uma catinga na cabeça e eu subi o morro pra entender o que era aquilo. Quando vi aquela montanha de lixo, a namorada morreu dentro de mim e foi substituída pelas imagens do lixão. Eu vi logo as pessoas brigando pra pegar um pedaço de pão pra
comer", relembra.

Nem O Inferno do poeta florentino Dante Alighieri, primeira parte da Divina Comédia - à época, recentemente devorada por Descartes - poderia ser pior que aquilo. Uma semana depois, o artista se mudou para o Jangurussu, improvisou o ateliê e seguiu em uma epopeia artística até 1980. "Coadjuvante da tragédia", como se define nessa narrativa, Descartes dividia-se entre observar, pintar, comer macarrão que chegava nos caminhões de lixo da Aldeota e apadrinhar crianças. "Sou padrinho de mais de 50 meninos, hoje encontro os que sobreviveram catando lixo no Centro."

Foi em um hospital também no Centro de Fortaleza que o artista plástico conheceu outra das mulheres retratadas em seus quadros. Agonizando nos corredores, uma grávida queixosamente cantava versos de Genival Santos. Descartes retirou o quadro da parede da Casa do Barão de Camocim e, lendo as anotações grafadas com caneta permanente no verso, entoou melodicamente o refrão da música: "crucificado do amor agora estou/ chorando por ela/ Meu Deus, o que será de mim?/ eu amando esta ingrata/ e ela zombando de mim". A cena revirou as entranhas do pintor. Pendurada em um arame entre colunas do Passeio Público, Crucificada do amor - de um alguém para outro alguém (óleo sobre tela, s/d) se consagrou nas tintas. "Ela é uma Jesuas, um Jesus mulher", comenta.

Para Descartes Gadelha, ser artista é sua síndrome. Durante 25 anos, ele destrinchou diariamente o célebre livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, e produziu um riquíssimo e incontável acervo sobre a Guerra de Canudos. "O artista tem que primeiro assumir a sua loucura para depois ser artista. Eu conversava com as personagens, discutia com a pintura, rasgava a tela Tudo para atingir o máximo de veracidade naquilo que eu pretendia. Não é mérito ser artista, é um sacrifício. É um sacrifício transformar o fel em mel." (Bruna Forte)

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