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Artesanato no Ceará. Riqueza tecida na invisibilidade

| TRADIÇÃO | Fonte de sustento para milhares de famílias, o artesanato no Ceará, considerado um dos mais ricos do Nordeste, ainda não sente os impactos do bom momento para o turismo no Estado e precisa de mais apoio

06/07/2019 22:04:20
IGUAPE,CE,BRASIL,27.06.2019: Como funciona o mercado do artesanato cearense de bilru, na Praia do Iguape. (fotos: Tatiana Fortes/ O POVO)
IGUAPE,CE,BRASIL,27.06.2019: Como funciona o mercado do artesanato cearense de bilru, na Praia do Iguape. (fotos: Tatiana Fortes/ O POVO) (Foto: )

Paisagens reconstituídas em pequenos vidrinhos de areia; o tilintar paciente do bilro que dá vida à toalha que, às vezes, leva até um ano para ficar pronta; o filé que se sobressai nos vestidos; a palha da carnaúba que vira brinco, bolsa ou sousplast de mesa; o couro que ganha cores para dar forma a objetos do presente, bebendo nas fontes do passado. São muitas as caras do artesanato cearense, tradição considerada das mais ricas do Nordeste. Mas, se por um lado, esta é uma veia econômica de inegável potencial, justamente por sua singularidade cultural, é também de poucos números e de invisibilidade.

Por ser uma atividade, nos níveis federal, estadual e municipal, pulverizadas entre as secretarias e ministérios, é difícil se chegar com maior precisão a quanto essa cadeia movimenta no Ceará. Os dados são esparsos. Não se sabe, por exemplo, quanto das toalhas e roupas de cama exportadas são de produtos artesanais. O que nos dá um número mais aproximado é o de exportações de obras de cestaria e de objetos ornamentais de cerâmicas no Ceará.

Somados, chegaram a apenas US$ 864 (R$ 3.300 na atual cotação) em 2018. Neste ano, soma pouco mais de US$ 1.386 (R$ 5.293), segundo dados do Centro Internacional de Negócios (CIN). O equivalente a 0,3% das exportações desses itens no País em 2019.

Além disso, da tradicional feirinha da avenida Beira-Mar, passando pelo prédio histórico do Centro de Turismo do Ceará (Emcetur), aos centros de artesanato localizados Interior, são comuns, entre os artesãos, as queixas de que os bons ventos que sopram para o turismo no Estado ainda não se traduziram em aumento de visitantes e, consequentemente, de vendas. "Nós aqui trabalhamos todos os dias com o pessoal das agências de turismo e alguns rodoviários. E, neste momento, está muito fraco. A nossa esperança é alta estação, mas o que precisa mesmo é que estes espaços sejam mais e melhor divulgados. Precisamos de apoio", afirma o presidente da Associação Comercial da Emcetur, Luiz Carlos Bezerra.

As rendeiras do Iguape, em Aquiraz, dizem que há pelo menos cinco, seis anos, há uma baixa consistente de ônibus turísticos que visitam a região. Há relatos de que têm semanas sem uma venda sequer. "Está fraquíssimo porque não existe mais aquela rota turística que tínhamos antes. Algumas pessoas me falaram que é porque já tem um centro na rodovia (CE-040), perto do posto rodoviário. E, para fazer a rota daqui, teriam que subir o viaduto e fazer o retorno. A gente vem tentando resgatar, mas é muito difícil", lamenta Antônia Cleide da Costa, presidente da Associação das Rendeiras do Iguape. Esse cenário tem afastado muitas artesãs. Atualmente, das 33 rendeiras que permanecem na associação, a maioria tem entre 50 e 70 anos, o que coloca em xeque a continuidade da tradição. "Isso preocupa muito".

De acordo com a Central de Artesanato (Ceart), vinculada à Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos (SPS), são cerca de 30 mil artesãos registrados no Estado que movimentam em torno de R$ 3 milhões por ano. Mas estes dados, nem de longe, retratam com fidelidade o ofício, marcado pela informalidade. E que, década após década, garante o sustento de milhares de famílias no Ceará. O último estudo mais aprofundado sobre a realidade do setor foi feito pelo Banco do Nordeste (BNB) há quase 20 anos, nos anos 2000.

Àquela época, foi identificado que 76,1% dos municípios cearenses possuíam o artesanato como uma atividade econômica importante para formação de renda das famílias. E que metade dessas cidades trabalhava com a tipologia renda e bordados, sendo responsável por cerca de 40% da produção nordestina desse gênero. Segundo o BNB, naquele ano, 23,8% dos compradores intermediários desconheciam os compradores em potencial, principalmente em exportação.

A atual falta de diagnóstico do setor é um dos grandes obstáculos a fim de traçar estratégias para alavancar o setor. É o que aponta Cláudia Leitão, diretora do Observatório de Fortaleza e presidente da Câmara Setorial da Economia Criativa da Agência de Desenvolvimento Econômico (Adece). "Se a gente não sabe quantos trabalhadores são, como isso impacta na economia, quantos são formalizados, como poderemos debater fomento, capacitação e mudanças na legislação?".

Ela diz que, até o próximo ano, a Câmara Setorial pretende entregar ao Governo do Ceará um plano estratégico, baseado em quatro pilares - pesquisa, formação, fomento e marco legal - para impulsionar o setor da economia criativa. "O artesanato brasileiro é um grande ativo para o nosso desenvolvimento, reconhecido pela Unesco. E o Ceará tem uma vocação importante que merece reconhecimento e investimento no sentido de pensá-lo como parte importante para economia criativa".

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