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50 anos da Batalha de Stonewall, a origem do orgulho LGBT

Um marco histórico da luta pelos direitos da população LGBTQ chega hoje aos 50 anos. Entenda por que esse confronto entre policiais e pessoas trans, lésbicas e gays mudou o mundo

28/06/2019 00:06:18
50 anos de Stonewall
50 anos de Stonewall (Foto: Cristiane Frota)

ESPECIAL
ESPECIAL (Foto: O POVO ONLINE)

Na noite de 28 de junho de 1969 o inimaginável aconteceu num bar em Nova York, nos Estados Unidos. Uma rotineira batida policial não terminou. A reação segue viva até hoje. E está replicada nas Paradas do Orgulho LGBT que acontecem mundo afora, tem papel determinante na conquista de direitos de cidadania para esta população e fez desta data o Dia Mundial do Orgulho LGBT.

À época do acontecimento, a homossexualidade era considerada crime em quase todos os estados norte-americanos, com exceção de Illinois. E a polícia costumava dar "batidas" em lugares frequentados pelo público gay, lésbico e trans.

Mas neste exato dia 28, há 50 anos, os policiais não encontraram a passividade costumeira. Ao levar para o camburão algumas drag queens e travestis que estavam no bar, chamado The Stonewall In, começaram a ser revidados. Para surpresa geral. Primeiro por elas, as prisioneiras, que faziam caretas e lhes remendavam. Reagindo à provocação das moças, os policiais aumentaram o grau de violência na coerção. A multidão que acompanhava o "Salve Geral" também reagiu e começou a jogar moedas nos policiais.

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O espírito do levante estava posto, sem maiores explicações, e encontrou caminho fácil para vir à luz. Depois das moedas, garrafas e pedras passaram a ser arremessadas contra os policiais. E clientes e funcionários de bares vizinhos juntaram-se aos que já estavam no entorno de Stonewall.

O caldo engrossou. E transbordou. A viatura da polícia foi virada de cabeça para baixo. Trocando em miúdos, a situação se inverteu. Os policiais, eram nove, correram ao interior do bar em busca de abrigo e lá se entrincheiraram. Ao tempo em que só crescia o número dos que, do lado de fora, estavam dispostos a enfrentar, fisicamente, os policiais.

A partir deste instante, os relatos são de cada um. E são muitos. O fato inegável é que a Batalha de Stonewall, como ficou conhecido o episódio, durou três dias, com reforço de ambos os lados.

"Demos uma resposta clara, um troco. Stonewall era um bar frequentado por gays, trans e lésbicas de baixa renda. Não eram apenas brancos de classe média. Eram negros, latinos que se rebelaram contra a violência policial recorrente", defende o cineasta René Guerra, diretor dos filmes Os Sapatos de Aristeu e Vaca Profana, que abordam a temática trans.

"Foi no corpo a corpo, no pedra a pedra, que Marsha (P. Johnson), e suas companheiras e companheiros conseguiram inaugurar amplamente algo muito maior que um movimento, a visibilização de um modo de existência", completa a jornalista e professora universitária Fabiana Moraes, citando a ativista negra e drag queen Marsha P. Johnson, uma das protagonistas da Batalha.

Já o roteirista e publicitário Tony Góes atenta para o ineditismo da reação da população. "Sempre vai ter quem diga que já havia ativismo gay antes do Levante de Stonewall. É verdade: na Europa e nos Estados Unidos existiam associações e revistas voltadas aos homossexuais desde, pelo menos, a década de 1940. Mas era tudo muito secreto, e quase sem nenhuma repercussão fora de um círculo muito pequeno. Stonewall mudou tudo isso. Foram três dias de revolta, com farta cobertura da imprensa e adesão de simpatizantes não-LGBT. Por isto o levante é considerado o marco zero da história da luta pelos direitos igualitários".

O Levante de Stonewall causou uma nova percepção identitária na população LGBT (que obviamente não tinha essa sigla) dos Estados Unidos e depois de outros países. Tanto que no ano seguinte, muitos foram às ruas no dia 28 de junho, e não só em Nova York, para celebrar o primeiro aniversário do episódio. Plantando a semente das Paradas do Orgulho LGBT que hoje acontecem em quase todos os países.

"A partir dos eventos de Stonewall, a população homossexual começou a entender que era uma guerra, que tinha um exército e poderia lutar. Foi quando os LGBT saíram da condição de invisibilidade para dizer que eram também uma força política", analisa Chico Fireman, jornalista e crítico de cinema. "Quando aqueles pioneiros foram para a rua, eles inspiraram gente mundo afora e gerações além, e pela primeira vez foram exigir respeito. Do lodo da intolerância brotou uma flor".

Por que celebrar os 50 anos da Batalha de Stonewall?

 

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AVANÇOS DO MOVIMENTO LGBT

1990

Organização Mundial de Saúde (OMS) retira a homossexualidade da lista internacional de doenças.

1997

1ª edição da Parada LGBT do Brasil, em São Paulo

1999

1ª edição da Parada LGBT do Ceará, em Fortaleza

2005

Primeira adoção no Brasil por casal homoafetivo.

2006

Sistema Único de Saúde (SUS) passa a oferecer cirurgias de redesignação sexual para mulheres trans.

2011

Supremo Tribunal Federal (STF) reconhece a união homoafetiva como entidade familiar.

2014

Rede Globo exibe primeiro beijo gay em horário nobre, na novela "Amor à Vida", de Walcyr Carrasco

2017

Um homem trans é personagem de destaque na novela "A Força do Querer" (TV Globo), de Gloria Perez

2018

Supremo Tribunal Federal decide, por unanimidade, que pessoas trans podem alterar seu nome e seu sexo em registros civis mesmo que não tenham passado por cirurgia de transgenitalização.

2019

Organização Mundial da Saúde (OMS) remove da sua classificação oficial de doenças, o chamado "transtorno de identidade de gênero", definição que considerava como doença mental a situação de pessoas trans.

 

the stonewall celebration concert
the stonewall celebration concert

Para ler ouvindo

The Stonewall Celebration Concert, de Renato Russo, lançado em 1994, para celebrar os 25 anos da Batalha

Conteúdo no portal www.opovo.com.br

Leia 50 depoimentos sobre a importância da Batalha de Stonewall.

Émerson Maranhão