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As mudanças no Aeroporto de Juazeiro do Norte em 30 anos

O bloco Nordeste foi o mais disputado, com arremate de R$ 1,9 bilhão no leilão promovido pela Anac. Vencedoras se comprometem a investir pelo menos R$ 788 milhões nos próximos cinco anos

16/03/2019 02:12:05
LEILÃO de concessão de 12 aeroportos na sede da B3, ontem, em São Paulo
LEILÃO de concessão de 12 aeroportos na sede da B3, ontem, em São Paulo (Foto: DIVULGAÇÃO)

Depois de mais de 15 lances, com direito à disputa acirrada nos segundos finais do leilão, a empresa espanhola Aena Desarrollo Internacional passou a ser a concessionária do Aeroporto Orlando Bezerra de Menezes, em Juazeiro do Norte, junto a Recife (PE), Maceió (AL), Campina Grande (PB), João Pessoa (PB) e Aracaju (SE), que integram o bloco Nordeste. Para o Cariri, a estimativa da Agência Nacional da Aviação Civil é que a circulação de passageiros salte de 590 mil por ano (2016) para 2,8 milhões até o fim da concessão, em 30 anos.

O arremate dos seis aeroportos do Nordeste foi de R$ 1,9 bilhão em evento ontem na B3, bolsa de valores de São Paulo. O Governo Federal arrecadou R$ 2,377 bilhões com as concessões de 12 aeroportos em três lotes, que incluem Sudeste (Zurich Airport Latin America arrematou por R$ 437 milhões) e Centro-Oeste (Aeroeste, com R$ 40 milhões). Somente no equipamento cearense, o investimento será na ordem de R$ 193,5 milhões para ampliação e manutenção.

A disputa pelo bloco Nordeste, voltado para o turismo, sugere que a região vem ganhando destaque aos olhos de administradoras internacionais de aeroportos, que dominaram o leilão. Em segundo lugar nos lances, a Zurich Airport chegou a oferecer R$ 1,851 bilhão pelo lote.

"Não é tanto sobre a região em si, mas os estudos de rentabilidade que fazemos. Estávamos interessados em Recife. Ali é uma região muito interessante. Mas tenho certeza que voltaremos a investir no Brasil nos próximos leilões", disse o presidente da Zurich Internacional Latin America, Stefan Conrad.

Mas a espanhola veio com a intenção de ganhar. Diretor da Aena Internacional, Juan José Alvarez revelou que a empresa estava disposta a subir ainda mais o valor de compra se necessário. O executivo admitiu que o interesse era majoritariamente em Recife e Maceió, mas se comprometeu a ir além das obras previstas no edital da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), em busca de ampliação da malha aeroviária com novas rotas e modernização das instalações no Cariri.

Único governador do Nordeste a participar do leilão em São Paulo, Camilo Santana (PT), governador do Ceará, admitiu que o aeroporto precisa de melhorias. Ele disse estar satisfeito com a superação em mais de 1.000% do valor inicial pedido pelo lote e prometeu ampliar o anel viário de Juazeiro do Norte que se liga ao aeroporto.

"Estamos muito felizes. Isso significa mais desenvolvimento para o Cariri, que já é um grande centro de negócios e de turismo religioso. Foi um dos aeroportos mais disputados no leilão. Isso quer dizer mais desenvolvimento, mais turismo, melhoria na economia da região. Não tenho dúvida que o aeroporto vai ter um crescimento forte, se transformando em um grande centro de conexão regional do Nordeste", afirmou.

As obras no Cariri demorarão pelo menos 10 meses para começar, segundo previsão do Governo Federal. Primeiro, a Aena deverá conseguir licenças ambientais para dar início às alterações na planta do aeroporto. O equipamento deverá ser ampliado em até quatro vezes em tamanho até o fim dos 30 anos de concessão.

Nos próximos 15 anos, o tamanho do terminal de passageiros sairá dos atuais 2,5 mil m² para 7,5 mil m², ano final da primeira fase da concessão. Uma segunda ampliação para 10 mil m² já está prevista na outra metade. A pista também deve aumentar 138 metros, passando de 1.800 m para 1.938 m - com 45 m de largura. Áreas de escape devem ser construídas nas duas extremidades.

O aeroporto deverá ter seu pátio de aeronaves ampliado, receber melhorias na segurança operacional nas pistas de pouso e de táxi, bem como nos pátios de aeronaves. Além disso, está programado o aperfeiçoamento na segurança da inspeção de bagagens e cargas embarcadas no aeroporto e adequações nos auxílios à navegação aérea. A nova estrutura deve contar ainda com quatro pontes de embarque, totalizando 12 posições de aeronaves.

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O perfil da espanhola Aena Internacional

A Aena é uma das maiores administradoras de aeroportos da Europa. Ontem, ela deu demonstração de poder e vontade de investir no Brasil. A empresa venceu a apertada disputa pelo bloco Nordeste.

"Esse bloco (Nordeste) tem um ativo importante. Queremos que tenha potencial de turismo. E 80% dos nossos aeroportos da Espanha são turísticos", disse Juan José Alvarez, diretor de Aena internacional.

De acordo com o relatório de 2017 da empresa, a Aena SME, S.A., é uma estatal espanhola que possui 46 aeroportos e dois helipontos na Espanha. Por meio da subsidiária Aena Internacional, tem presença em outros quatro países. São 12 aeroportos no México, dois na Jamaica, dois na Colômbia e 51% do London-Luton, no Reino Unido. Gere atualmente, incluindo as aquisições brasileiras, 71 portos aéreos. A empresa chegou a atuar na Bolívia e nos Estados Unidos.

A Aena Internacional entra no Brasil pela região Nordeste, a mais próxima da Europa, como destacou Alvarez. Assumiu o controle de seis aeroportos, dentre eles o de Juazeiro do Norte (CE). Ele afirma que a empresa já tinha plano de expansão para a América Latina há algum tempo. Não participou dos leilões anteriores, que incluiu o aeroporto de Fortaleza, por "problemas internos". Mas revelou que estavam de olho na situação brasileira.

O executivo diz ainda que a concessionária pretende levar Recife e Maceió para disputa direta com Fortaleza, que teve aeroporto concedido em 2017 e onde opera o hub da Air France-KLM/Gol.

O Aeroporto da capital cearense é gerido pela alemã Fraport, que participou do leilão de ontem, mas foi eliminada dos dois blocos em que concorria, com lances entre os mais baixos. "Parabéns ao Estado brasileiro que conseguiu atrair tantos proponentes e com valores tão altos", afirmou a presidente executiva da Fraport, Aletta von Massenbach. Ela se disse surpresa com o valor dos lances iniciais.

Além do R$ 1,9 bilhão de contribuição inicial, a serem pagos na assinatura do contrato, que deve ocorrer na próxima semana, a espanhola deverá desembolsar R$ 788 milhões, nos primeiros cinco anos de contrato em obras, de melhorias nos aeroportos do Nordeste.

Os novos desafios para a economia do Cariri

A entrada da concessionária espanhola Aena Desarrollo Internacional na gestão do Aeroporto Orlando Bezerra de Menezes sinaliza avanço socioeconômico a Juazeiro do Norte e para o Cariri como um todo. Mas há desafios para a consolidação desse cenário.

O município dividirá expectativa de investimentos com Recife, onde há maior fluxo de passageiros e o hub da Azul. Outro ponto será a necessidade de melhoria na infraestrutura do Cariri para sustentar o interesse de investidores após a concessão. Especialistas, empresários e governo avaliam que a região está preparada para encarar o novo momento.

Adalberto Febeliano, professor de Economia do Transporte Aéreo, explica que a empresa poderá ter a capital pernambucana como polo principal, devido ao hub aéreo da Azul. Pondera, no entanto, que o terminal cearense tem outras vantagens. "Mas há outros equipamentos interessantes, assim como todo o bloco Nordeste. Se formos analisar, com exceção de Recife - que é marcado mais por voos de negócios -, os demais são mais turísticos e de passagem de familiares", diz, informando que a Aena tem foco no turismo.

"A concessão é um marco para Juazeiro (do Norte). Todos os lotes tiveram empresas dando lances acima do valores e isso demonstra que existe uma confiança no setor de transporte aéreo. Esse aspecto é muito importante para desenvolver os produtos turísticos", complementa. Para o secretário do Desenvolvimento Econômico e Inovação do Município (Sedeci), Michel Araújo, o resultado do leilão foi "além das expectativas". "Não esperávamos um ágio tão alto", comemora.

Ele ressalta que a espera agora será por aumento no fluxo de voos e passageiros. O Aeroporto de Juazeiro terá gestão compartilhada nos próximos três meses. Após esse período, necessária para alinhar as questões jurídicas, assume integralmente a administração do equipamento.

Arnon Bezerra, prefeito de Juazeiro acredita que "agora toda região irá tomar um novo ritmo". Sobre necessidade de melhorar a infraestrutura para atrair novos investimentos, ele afirmou que há uma preparação de Parcerias Público-Privadas (PPP) para o abastecimento de água, mobilidade e asfalto.

O secretário de Turismo do Ceará, Arialdo Pinho, acrescenta que é positivo para o Nordeste que os três maiores terminais estejam na mão da iniciativa privada. "Isso é importante para estimular os números, ficará mais fácil negociar novos voos", destaca. Outro benefício, cita, é a visibilidade dos atrativos turísticos além do religioso. A expectativa é que todo Cariri receba mais visitantes para o ecoturismo, que tem o Geopark como vitrine.

A possibilidade de expansão da infraestrutura aeroportuária e melhoria nos serviços viabilizam o aumento das exportações e diminuição de custos logísticos. Juazeiro do Norte exporta principalmente calçados e máquina de costura. Entre janeiro e outubro de 2018, vendeu US$ 320,4 milhões em produtos. Os principais compradores são os países do Mercosul: Paraguai (56,3%) e Argentina (38,5%).

"Poderá ter mais condições para mercadorias exportadas via modal aéreo, como o calçado. Mas, para isso, é preciso ter conhecimento se irá operar cargas e terá porões destinados serviço", enumera Karina Frota, gerente do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Estado (Fiec). Em 2018, foram transportados 1.003,5 milhão em mercadorias, segundo a Anac.

Douglas Feitosa, presidente Câmara de Dirigentes Lojistas de Juazeiro (CDL Jovem), destaca que o mercado está otimista e prevê crescimento na atividade econômica. A percepção é a mesma para Luciana Rodrigues, proprietária do restaurante Malu. "Vai melhorar em todos os sentidos", projeta. A empresária vai investir na capacitação dos profissionais, que farão curso de inglês e já planeja a contratação novos funcionários para caixa e cozinheiro.

Alexandra Melo, que tem uma franquia do curso de inglês Wizard, observou aumento na demanda. Ela conta que abriram uma turma nova para agentes aeroportuários, que já estão na Cidade recebendo o treinamento.

 

Governo diz que ágio em leilão "não foi surpresa"

O governo preferiu adotar a postura do "isso já era esperado" para comemorar o resultado do ágio de 4.739,38% no leilão dos 12 aeroportos.

O bloco Centro-Oeste, que engloba os aeroportos em Cuiabá, Sinop, Rondonópolis e Alta Floresta, todos em Mato Grosso, foi arrematado pelo Consórcio Aeroeste (formado por Socicam e Sinart). O grupo ganhou o bloco com lance de R$ 40 milhões, um ágio de 4.739,38% sobre o valor inicial de R$ 800 mil.

A espanhola Aena conquistou o bloco Nordeste, com valor de contribuição inicial de R$ 1,9 bilhão, o que corresponde a um ágio de 1.010,69% em relação ao valor mínimo estabelecido no edital. Esse conjunto, que tinha lance inicial de R$ 171 milhões, é composto pelos aeroportos de Recife (PE), Maceió (AL), Aracaju (SE), Juazeiro do Norte (CE), João Pessoa e Campina Grande (ambos na Paraíba).

A suíça Zurich levou o bloco Sudeste com uma proposta de outorga inicial de R$ 437 milhões, ágio de 830,15%. O bloco reúne o terminal de Vitória (ES) e de Macaé (RJ) e tinha lance proposto de R$ 46,9 milhões.

"Estou feliz, mas não estou surpreso", garantiu o secretário especial da Secretaria do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), Adalberto Santos de Vasconcelos. "Sabíamos que era um teste de ferro do governo, mas tratamos de oferecer inovações regulatórias, com ágio e outorga pagos à vista e a cobrança de investimentos necessários de acordo com a demanda". "O resultado mostra o otimismo dos investidores internacionais no País."

Para Paulo Dantas, sócio do escritório Castro Barros Advogados (CBA), não há razões para esconder a surpresa do resultado. "Eu participava de um evento sobre infraestrutura no momento do leilão. Todos acompanhamos ao vivo a disputa. A verdade é que a surpresa foi total. Ninguém esperava uma concorrência tão forte".

Dantas, que acompanha atende clientes estrangeiros para investir no Brasil, previa disputa mais moderada. "Sabemos que as empresas internacionais não gastam dinheiro à toa, por isso entraram com lances tão impressionantes. Mas é preciso admitir que realmente houve algum descompasso de avaliação do preço por parte do governo". (Agência Estado)

Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) comemorou, em seu perfil no Twitter, o resultado do leilão de doze aeroportos no País.

Contrato

A concessionária terá de apresentar à Anac Plano de Gestão da Infraestrutura em até 180 dias a contar do contrato e a cada 5 anos de concessão.

Isabel Filgueiras