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Violência

Infâncias limitadas por facções

| VIOLÊNCIA | Rotinas infantis são afetadas em comunidade dominada por organização criminosa

27/02/2019 00:18:46
CRIANÇAS de área dominada por facções criminosas relatam ruas dividas e impedimentos para brincar na rua
CRIANÇAS de área dominada por facções criminosas relatam ruas dividas e impedimentos para brincar na rua

"Agora, só pode brincar quando tá claro". A frase é de uma criança de 10 anos que vive as consequências das ações de facções no estado do Ceará. Na rua onde mora, as lâmpadas dos postes estão quebradas, uma tática usada para impedir a entrada policial à noite. Esse é apenas um dos vários relatos de meninas e meninos que tiveram seus cotidianos afetados por interferências de organizações criminosas. O POVO chegou a um bairro dominado pelo Comando Vermelho ainda no fim da tarde, quando os raios de sol iluminavam a rua sem asfalto. Em uma sede de organização não-governamental (ONG) que realiza trabalhos socioeducativos com crianças e adolescentes, escutou relatos de uma infância acuada após ataques realizados por facções no último mês de janeiro.

O local fica perto de ruas onde ônibus foram incendiados. Desde então, o deslocamento pela Cidade com pais ou responsáveis se tornou um ato de coragem. Receosa, uma das meninas conta que programas em família, como ir ao shopping, agora exigem atenção. "Vai que eu vou e querem tocar fogo no ônibus em que eu tô?", questiona.

De acordo com as crianças ouvidas, a atuação de facções criminosas em bairros de Fortaleza afeta o direito de ir e vir até mesmo nos momentos em que frequentam a rua onde moram. Ao se referir a duas amigas que participavam da conversa, uma das crianças diz que "a mãe delas não deixa (as meninas) saírem na rua para brincar por causa da escuridão. Pouca gente pode sair na rua para brincar".

Para além das lâmpadas quebradas, também narram que a rotina sob o comando de uma facção é caracterizada pelo horário reduzido de funcionamento de alguns pontos de comércio na região. "Uns fecham 7 horas, outros fecham 10 horas (da noite)". Segundo uma das meninas, uma loja de rações chegou a ser incendiada após descumprir o "toque de recolher".

A educadora que trabalha na sede do projeto relata ao

O POVO o direito à liberdade, no local, é afetado de diferentes modos. Em uma das terças-feiras de ataques em janeiro, os criminosos chegaram a distribuir panfletos ordenando que nada funcionasse e que todos permanecessem dentro de suas residências. "Conversando com as vizinhas, soube que a ordem era para que não saíssem de casa", lembra.

Em cerca de 30 minutos de conversa, as crianças demonstraram estar conscientes da atuação do crime organizado onde moram. A sigla da facção não está presente apenas no muro pichado, mas também em espaços reservados. Na ONG, uma das cadeiras ocupadas pelas crianças estava assinalada com iniciais da facção.

A sinalização e a divisão territorial dos espaços públicos é uma situação encarada com medo por muitas delas. Com facilidade, meninas e meninos detalharam os limites de caminhada estabelecidos por Comando Vermelho e por Guardiões do Estado na área onde O POVO esteve. "Aqui a gente tem medo, aqui é uma facção, ali é outra. É perigoso", alerta um dos garotos.

A noite já havia caído quando a conversa com as crianças foi encerrada. A rua escura, sem iluminação, contrastava com a esperança alimentada por meninas e meninos que ali vivem. Durante a despedida, ao serem questionadas sobre em qual Fortaleza esperavam crescer, uma das crianças disse que sonhava com uma cidade que tivesse "uma vida melhor".

Em nota, a Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos (SCSP) informou que tem conhecimento das ações realizadas por vândalos no bairro onde O POVO esteve. A assessoria de imprensa também informou que, por meio da Coordenadoria Especial de Iluminação Pública, "serviços de manutenção dos equipamentos de iluminação nas vias do bairro estão sendo realizados", a exemplo de duas comunidades já contempladas com a ação. Os serviços relatados, segundo a nota, contam com escolta da Polícia Militar e da Guarda Municipal.

Sigilo

O POVO opta por não colocar os nomes das crianças, dos responsáveis e demais entrevistados a fim de evitar a exposição dos envolvidos a situações de insegurança que poderiam resultar dos seus relatos.

 

Crianças da periferia falam expõem percepções sobre os ataques

"É horrível, porque os ataques não são muito alegres"

"As luzes estão queimadas, quebraram as luzes do bairro (...) Antes, era tudo normal. Era tudo com luz"

"Parece que foi de dentro do presídio, que eles quebraram as luzes"

"Não posso ir pra pracinha, porque é lá que ficam os gangueiros"

"Aqui a gente tem medo, aqui é uma facção, ali é outra, é perigoso"

"O tio tá gravando não, né?"

(quando foi perguntado ao grupo sobre os limites territoriais estabelecidos pelas facções)

"Dá medo"

(quando perguntado sobre o que sentia a respeito dos limites territoriais estabelecidos por facções)

"Com tudo escuro, se tiver bala, vamos correr de um lado pro outro?" 

"Umas fecham 7 horas, outras fecham 10, 11 horas (da noite)"

(sobre fechamento de lojas e outros pontos de comércio na região)

"A gente brincava de noite porque tava claro, não tinha medo de acontecer alguma coisa. Agora, pode brincar só quando tá claro"

"Eu tô sem palavras"

(após segundos de silêncio à pergunta sobre por qual motivo uma realidade diferente seria melhor para as crianças)

"Brincar no meio da rua. Queria correr nas ruas, mas não pode"

(quando perguntado sobre o que gostaria de fazer caso vivesse em uma outra realidade)

"Dá vontade de mexer no celular na calçada, mas tenho medo"

"A mãe delas não deixa (as meninas) saírem na rua para brincar por causa da escuridão. É pouca gente que pode sair pra rua para brincar" 

"Eu acho ruim porque, tipo assim, a pessoa vai pro shopping de ônibus, tem muita gente que não pode ter um carro, uma moto, né? Aí a pessoa tem que ficar sempre atenta, porque podem vir e botar fogo no ônibus"

(quando o grupo foi questionado sobre a vontade de locomoção pela Cidade após ocorrências de ônibus incendiados)

"Eu iria para Orlando (EUA), onde não tem bandido, não tem essas coisas (...) Lá não tem bandido, não tem nem presídio"

(quando perguntado sobre o que faria caso pudesse mudar a realidade em que vive)

"Uma vida melhor"

(quando indagado sobre qual transformação espera para Fortaleza)

"O policial não bater nas pessoas inocentes"

(quando perguntado sobre o que esperam para Fortaleza)

Nut Pereira