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Jornal

Diminuir distâncias e ocupar vazios

reportagem

07/01/2019 01:30:00
Fortaleza, cidade beira-mar. Feita de bairros muito ricos e muito pobres; ruas muito seguras e muito perigosas; pistas lisas e esburacadas; calçadas caminháveis e intransitáveis; comércios de fachadas atrativas e hostis; linhas de ônibus confortáveis e insuportáveis; parques limpos e imundos; pontes charmosas e despedaçadas; prédios ocupados por gente e por nada; praças apinhadas de gente e de nada. Fortaleza, cidade beira-mar. Feita de deslumbre e desigualdade.

 

Equalizar o lugar em que vivemos é possível, mas precisamos nos reorganizar e diminuir distâncias. Ninguém compreende, de uma ponta a outra do mapa da cidade, por que as residências ainda hoje são construídas tão afastadas dos trabalhos, das escolas, das universidades, dos espaços de lazer. "A gente perdeu o juízo ou a conexão com as coisas", observa Laura Rios, arquiteta, uma das criadoras da empresa Estar Urbano, que executa projetos de impacto social na Capital.

 

Laura diz que, devido a essa desconexão, apesar das transformações  recentes, Fortaleza ainda se configura "um problema de saúde mental e física" para quem a habita. Soberanos na maioria das vias, carros e motos ainda trafegam ligeiro demais, ameaçando quem estiver pela frente. Sem moradia a preço justo e, às vezes, sem emprego para prover qualquer aluguel, parte da população ainda mora longe e/ou mal. Sobrecarregado, o transporte público ainda não consegue oferecer serviço de qualidade. Sem motivação, pouca gente anda por aí. Por consequência, ainda existem inúmeros espaços públicos vazios, inseguros e sem função. "O bom da cidade é o caos, as pessoas, não ter linearidade, a surpresa", ensina a arquiteta.

 

Existem, assim, formas eficazes de reconstruir a cidade para deixá-la melhor. "O movimento comunitário tem de ser a mudança", indica Laura. Contudo, não só. Cabe à Prefeitura e aos demais braços da gestão pública o papel de impulsionar inovação com leis e exemplos. E, à iniciativa privada, "administrar melhor" os recursos investidos em responsabilidade social, acolher as novidades instigadas pelo Município e remodelá-las, se preciso, para adequar à realidade de seus funcionários, grupo que, geralmente, mais depende do transporte público.

 

A política habitacional, para Laura, também deve passar por drásticas transformações a partir de hoje, marco do primeiro ano da década que resta para O POVO chegar ao seu centenário e, Fortaleza, ao seu trecentésimo terceiro aniversário. Chega de tirar gente dos centros urbanos e trancafiá-las em conjuntos habitacionais socialmente vulneráveis nas arestas da cidade, longe de tudo. Há prédios vazios, sem função, aptos para serem morada. Da mesma forma que há como expandir construções mistas, com comércio e residência, sustentáveis economicamente, e proteger quem resiste à especulação imobiliária. "Há possibilidade de se ganhar dinheiro com isso e resolver um problema social".

 

"A cidade é uma formação criativa de pessoas que transformam a toda hora os espaços. A gente não precisa projetar para incluir porque pessoas já são a base. A maneira como elas se sentem ou como são tratadas é que é o diferencial", aconselha, por fim, a profissional. Como caminho a seguir, ela indica: "Apenas não oprima. Inclusão, na verdade, é a não opressão".

 

Luana Severo

luanasevero@opovo.com.br

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