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As mulheres comandam o orçamento no lar em Fortaleza

Dados do IBGE mostram que, na Capital, metade das mulheres são consideradas as pessoas de referência econômica nas famílias

17/01/2019 01:30:00
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As transformações nas constituições familiares trouxeram consigo mudanças na forma do relacionamento com os fatores que envolvem a gestão domiciliar. Uma dessas vertentes é a financeira. Em Fortaleza, metade dos domicílios têm mulheres como pessoa de referência familiar.

 

Entre nove regiões metropolitanas analisadas pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a da Capital é a terceira com o maior percentual de arranjos familiares que têm mulheres como chefes de família, são 50,1%.

[SAIBAMAIS] 

Os dados mostram, entre 2001 e 2015, que o aumento de mulheres que possuem um papel importante no comando do lar subiu 105% no Brasil. Até o ano de 2015, quase 30 milhões de residências brasileiras eram chefiadas por mulheres.

 

Os fatores desta mudança também são diversos. Eles vão desde o aumento no número de famílias constituídas por mulher e filhos, a feminilização da pobreza e a maior inserção delas no mercado de trabalho, inclusive em cargos de gestão.

 

Há, no entanto, que se ressaltar um destaque qualitativo nos dados da última década: apesar de ainda não ser tão expressivo em números absolutos, houve salto significativo no número de mulheres chefes de famílias do chamado núcleo duplo, quando há a presença de um cônjuge.

 

À revelia da desigualdade salarial, das jornadas triplas, do desequilíbrio de divisão de tarefas domésticas e do machismo, elas têm sido insurgência na referência financeira familiar.

 

É o caso de Poliana do Nascimento Silva, 32. Casada com o motorista de transporte por aplicativo Jardelson Brito, 33, e com a família pertinho de aumentar, a secretária-executiva conta que sempre foi a principal provedora da família. "No começo, era só eu mesma. E agora ele trabalha (como motorista) de Uber, tem o valor variável. A minha é a renda fixa e certa. Hoje eu recebo em torno de R$ 1,5 mil. Ele tira no mês uns R$ 1,2 mil. Ainda é menos e não é fixo. Se ele ficar doente ele não recebe", conta.

 

Conforme Poliana, o assunto sempre foi algo bem resolvido em casa. Por ter emprego com salário e hora fixados, ela assume a maior parte das principais despesas. E ele, por ter horário mais flexíveis, acaba ficando com a maior parte das tarefas domésticas.

 

"Graças a Deus nunca tive problema quanto a isso de eu receber mais. A gente tem uma relação bem bacana. Eu falo abertamente sobre isso. Quando chego já tem casa arrumada, já tem janta. Ele é bem parceiro. Eu não sou de providenciar uma refeição certinha, então falei pra ele que se ele quisesse jantar, ele tinha que fazer. Ele sabe que eu sou empoderada, entrou avisado", conta.

 

Conforme ela, há críticas diante do posicionamento, inclusive por familiares: "Tem gente que acredita que mesmo eu sendo a principal provedora da casa eu deveria chegar e ainda ir cuidar de um rotina doméstica".

 

As mudanças ao longo dos anos, são inclusive conceituais. Para se ter uma  ideia, na década de 1970, o levantamento do IBGE descartava a possibilidade de a mulher ser a chefe da família única e exclusivamente pela presença de um homem em casa. Atualmente, o conceito de chefe de família e da chamada pessoa de referência para o IBGE é o "responsável pela unidade domiciliar ou que assim for considerado pelos demais moradores".

 

As quatro regiões metropolitanas do Nordeste são as com maiores percentuais de mulheres como pessoas de referência na família. Em três, há mais lares chefiados por elas do que por eles: Recife, Belém e Fortaleza. Na Capital, o crescimento do número delas no comando do orçamento da casa foi de 11 pontos percentuais entre 2004 e 2015.

 

Entre estados, o Ceará está em 10º lugar no número de mulheres chefes de família com referência na população de cada unidade federativa. Aqui, elas representam 42,9% das pessoas no comando aumento de mais de 11 pontos percentuais desde 2004.

 

Conforme estudo feito pela professora de pós-graduação da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, Suzana Cavenaghi, sobre as mulheres chefes de família no Brasil, a autora destaca que, no passado, os lares que eram comandados por mulheres eram influenciados pelo crescimento de famílias de uma pessoa.

 

"A maioria delas tinha sido abandonada pelos maridos, ficando com toda a responsabilidade de manter a casa e educar os filhos. Mas, agora, o cenário é diferente. O que se vê é um crescimento de famílias, que mesmo com a presença de um cônjuge, as mulheres possuem maior poder aquisitivo e poder de decisão". A pesquisa ainda mostra que entre os casais com filhos, o número delas no comando passou de 1 milhão, em 2001, para 6,8 milhões, em 2015, alta de 551%. Já no caso dos casais sem filhos, o crescimento foi 

ainda maior, de 339 mil para 3,1 milhões, diferença de 822%.

 

Apesar de não ser maioria, as mudanças apontam para salto qualitativo nas relações de gênero. Entre os principais motivos, Cavenaghi cita principalmente a abertura democrática vivida ao longo dos anos que possibilitaram diversas transições sociais.

 

"Foi o conjunto dessas transições, assim como a abertura democrática que garantiu a liberdade de organização, mobilização e expressão, permitindo às mulheres se beneficiarem do mais profundo e mais extenso período de normalidade democrática", aponta.

 

Os números mostram que há desenvolvimento qualitativo, mas ainda há um longo caminho a ser traçado rumo à igualdade. Desde a salarial até às divisões justas de tarefas domésticas. Tudo isso passa pela educação e políticas públicas afirmativas que acompanhem projeções de um futuro cada vez mais feminino, conforme avalia a autora. (Colaborou Domitila Andrade)

 

EDUARDA TALICY

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