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HUMANIZAR A SAÚDE

O ano é 1988 e a saúde do País passava pelo processo mais intenso de democratização de acesso ao serviço: o Sistema Único de Saúde (SUS) era instituído pela Constituição Federal. Antes mesmo de a Carta Magna ser assinada em outubro, O POVO, há época com 60 anos de circulação, trazia uma matéria sobre como se daria a estruturação e a equiparação dos salários dos profissionais. São 31 anos de SUS neste 2019 e alcançar uma equidade plena ainda é gargalo.

"Nós avançamos muito, temos uma expectativa de vida que saltou para 70 anos. Mas é preciso ainda que isso chegue com equidade, porque ainda tem gente vivendo e morrendo em condições do século passado. Temos uma África e uma Europa no Brasil, no Ceará e em Fortaleza. Sempre que há concentração de riqueza, vai haver pobreza extrema, e onde tem pobreza os indicadores de saúde vão refletir isso", resume a médica ginecologista obstetra Liduína Rocha.

Quando o ofício ainda se construía, na década de 1990, Liduína, hoje coordenadora do Programa Nascer no Ceará, se deparou com uma mulher parindo na calçada à sua frente, em meio ao vai e vem de estudantes e pacientes da Maternidade Escola Assis Chateaubriand (Meac). Ela se viu absorta de encantamento pela beleza e a potência do corpo feminino que aflora para o parto. A cena viva na memória da médica ajuda a traçar parte da sua trajetória de enxergar a medicina para além das técnicas. Foi vendo o desfolhar da vida que se abre para o nascimento, repetidas vezes assistindo mulheres sendo donas do seus corpos ao maternar, e sendo ela também mãe, que a médica entrelaçou seu destino. "A humanização é respeitar a ideia do protagonismo do paciente. É entender que a saúde se relaciona da forma como a gente é feliz, como comemos, onde a gente vive, a que políticas a gente tem acesso. É olhar o paciente na sua integralidade".

É pelo caminho da humanização que Liduína consegue afrouxar alguns milímetros do nó que a garganta dá quando faz o exercício de olhar o futuro. São cortes de gastos num sistema que já anda precário; forças políticas que não se alinham com o padecer de quem vive em vazios assistenciais; atenção primária, secundária, e terciária que não dialogam como deveriam; a curva de aprendizagem nos cursos de Medicina que ainda idealizam um paciente social, financeira e culturalmente distinto daquele que recorre ao SUS; os investimentos na saúde pública que se assemelham ao da saúde suplementar, mesmo que essa atenda três vezes menos gente que aquela. Olhar o porvir é pisar no incerto. Mas há que se sonhar.

No primeiro ano da década que leva aos 100 do O POVO e aos 40 de SUS, Liduína planta quimeras. "Acredito que em condições de muita dificuldade, as pessoas se organizam. Se pode fazer uma série de críticas (aos governos anteriores), mas o pouco de acesso que houve à educação, à boa alimentação, à saúde, gente que nunca tinha visto um médico, isso transforma tão significativamente a vida das pessoas que é difícil silenciá-las. Esse é o caminho. Os próximos anos vão ser de muito embate, mas acredito que também vamos nos abrir à humanização. As condições adversas acabam nos levando a maior possibilidade de diálogo", aduba.

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