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FAZENDO DE TÁBUA PRANCHA

Na infância, o menino que se convencionou chamar de "Fera" trocava maços de cigarro por tábuas de madeira para criar uma prancha de surfe. Com quilhas feitas de monobloco e plástico cortado, parafina feita de vela usada e perfumada por chiclete sabor tutti-frutti, João Carlos Sobrinho foi desenhando para si uma realidade que moldou parte de um bairro.

Hoje, João Carlos Fera, 50, já acumula 23 anos como professor e idealizador da Escola Beneficente de Surfe Titanzinho (EBST), que, como ele próprio define, une o surfe ao social para "resgatar a cidadania dos meninos", combatendo a violência e fomentando a educação. Em Fortaleza, a praia do Titanzinho, no bairro Cais do Porto - mais conhecido como Serviluz - virou sinônimo de formação esportiva. E Fera é um agente criador desse ecossistema "radical".

Basta descer a avenida Leite Barbosa, que dá acesso às praias Mansa e Titanzinho, para ver o efeito da EBST no Serviluz de hoje. "Nós temos hoje no bairro uma grande quantidade de escolas de surfe. E todas essas escolas são de meninos que nasceram aqui (na EBST) e que cresceram aqui. Aprenderam a surfar, aprenderam a ensinar e estão sobrevivendo às custas do surfe", diz Fera. Para ele, o projeto é uma "árvore que deu fruto". "As palavras que eu falei tão reverberando. E graças a Deus alguns que poderiam ter partido para a marginalidade preferiram se envolver com o esporte".

Fera não ignora a realidade violenta, dura da região, uma das mais pobres de Fortaleza. No mais recente estudo sobre desenvolvimento humano por bairro da Capital, realizado em 2010, o Cais do Porto tinha o 98º pior índice entre 119 distritos. Foi ali, num local que já foi sinônimo de violência e hoje é terra do surfe, que João Carlos Fera viu o potencial transformador do esporte, que, como bom professor, ele exporta para toda a Cidade.

"Fortaleza precisa do mar, depende do mar. Se tirássemos o mar daqui, que cidade teríamos a oferecer?", questiona. Desse pensamento, Fera defende a consciência socioambiental como chave para construção de um futuro equilibrado. "Todo surfista de alma tem essa relação intrínseca com o mar. O esporte cria pessoas conscientes para defender o entorno onde estão inseridos". Para além disso, o mestre do surfe defende que uma cidade povoada por surfistas é também povoada por salva-vidas.

Acima de tudo, porém, a praia tem potencial para combater a violência, a ociosidade e tem até poder terapêutico. "O mar cura. Ele faz a gente se sentir mais gente", poetiza. Assim, Fera defende que o Poder Público abrace o esporte, abrace a praia como política de inclusão social - e mesmo combate à violência. Essa realidade, diz ele, é possível. Como prova, Fera fala com orgulho das centenas de meninos que aprenderam a ser gente em cima de uma prancha nas ondas do Titanzinho. Jovens que, como ele, fizeram a "Califórnia na favela", como ele define, citando o verso de "De repente, Califórnia", de Lulu Santos, que cantava na mocidade.

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