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O INFERNO SÃO OS OUTROS

Darwin Marinho se inspirou na Tempestade, personagem de X-Men, quando platinou o cabelo pela primeira vez. Os fios agora exibem uma coloração avermelhada, as unhas estão pintadas e as orelhas carregam brincos pesados. Bem diferente do garoto que veio de Tauá para Fortaleza aos 13 anos e se viu no coração de uma comunidade católica. "Minha referência, como criança negra, era essa super-heroína de cabelo branco. Fiquei apaixonado pela roupa, pelo poder dela. A gente cresce sem pensar em referências que saiam de um eixo eurocentrado", explica ele, que é artista visual e DJ da Fertinha (projeto musical formado por cinco DJs de Fortaleza que promovem festas cuja tônica é a diversão, o desapego às normas e a liberdade sexual).

Sua aparência se encaixa bem com a das outras demônias que integram o Carnaval do Inferno, bloco que surgiu em 2016, em formato de festa, e que desde então passeia pelas ruas do Centro estabelecendo um espaço de música pop e respeito à diversidade. A ideia é criar alternativas ao que ele classifica como a heterossexualidade compulsória do Carnaval: "A gente sofria homofobia em blocos que supostamente eram super desconstruídos, como o Sanatório Geral. A esquerda está todinha lá, mas a gente ouvia xingamentos. Era bizarro".

No Inferno de Darwin, as demônias fazem a festa que querem. "Criar esse lugar seguro pra gente implica na destruição de várias normas: a forma como a cidade é construída e o modo como a heterossexualidade é um padrão estabelecido", esclarece, para em seguida levantar questionamentos. "Quais são os corpos que são realmente libertos nesse carnaval tradicional? Qual corpo ele celebra? Não são todos. Mesmo que seja uma festa democrática, há várias segregações O Carnaval do inferno representa essa libertação".

Usando o Carnaval como metáfora utópica de uma Fortaleza ideal, que pode ou não se cumprir na próxima década, Darwin aponta para a necessidade de inclusão das dissidências "Se você está cercado por pessoas dissidentes, em termos de gênero, raça e sexualidade, conversando e escutando, você provavelmente vai mudar", reflete. O artista visual desloca da dissidência a responsabilidade de conscientizar a população: "Deixar nas mãos de pessoas negras, LGBTs e mulheres a tarefa de educar e explicar como as outras pessoas devem agir já é muito violento".

Mas a cidade que redescobriu o Carnaval e o País que nunca esqueceu dele parecem estar mergulhando fundo numa escuridão que não é atual. "O cenário político é nebuloso, mas já está assim há muito tempo. Faz tempo que somos o País que mais mata transexuais. Os índios vivem essa situação desde 1500. Pra muita gente, o fim do mundo vem acontecendo há muito tempo", avalia. Enquanto as sombras não se afastam, Darwin acredita no potencial de seu Inferno. "Essas pessoas estão condenadas ao inferno dentro dessa narrativa católica e colonial. Tomamos o nome de demônias pra gente e devolvemos em forma de festa", conclui.

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