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O papel do idoso que tem emprego

Trabalhar após os 60 é importante na renda familiar. Idosos estão principalmente no mercado informal

01:30 | 09/11/2018

Em sua maioria homens, chefes de família, muitos já aposentados e ocupados no mercado informal. Este é o perfil do idoso cearense que permanece trabalhando depois dos 60 anos. Quem traça o perfil é o analista de Mercado de Trabalho do Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT), Mardônio Costa. De acordo com pesquisa do IDT de 2015, seis em cada dez aposentados são os principais provedores da família.

"Com a crise do emprego (que deixa muitos jovens fora do mercado de trabalho) e sendo o Ceará um dos estados que têm uma das menores remunerações do País, o peso da renda do aposentado tem impacto grande nas condições de vida da família", aponta.

Com o nível das aposentadorias dos idosos não sendo suficientes para manter o padrão de consumo, com elevados gastos principalmente em relação à saúde, muitas pessoas voltam a ingressar no mercado de trabalho, é o que indica o economista Ricardo Coimbra, mestre em Economia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Atualmente, conforme dados da Pnad, o nível de desocupação de pessoas com 60 anos ou mais é de 3,2% - ou seja, apenas três em cada dez idosos que desejam trabalhar não estão ocupados.

"Esse avanço na ocupação está sendo puxado pelo mercado informal autônomo ou sem carteira assinada. Essa população de 60 anos ou mais tem mais condições de trabalhar por conta própria, primeiro porque tem um processo de preconceito e discriminação em relação idoso (de achar que tem produtividade baixa, dificuldade de aprender. Mas, principalmente, porque os idosos já têm alguma renda da aposentadoria, algum capital, e experiência", explica Mardônio.

Assim, os mais experientes tendem a trabalhar mais por conta própria do que o jovem e é menos suscetível ao impacto do desemprego do que a população juvenil.

E apesar do crescimento, os idosos ainda representam 7% da população ocupada do Ceará - índice que se assemelha ao nacional. Para Mardônio, com expectativa de que a população de pessoas de 65 anos ou mais triplique até 2060 e chegue a ser 25% dos cearenses, a sociedade precisa repensar os impactos desse envelhecimento culturalmente, politicamente e economicamente.

Estatuto do idoso 

Em seu Capítulo 6, o estatuto garante ao idoso o exercício da atividade profissional, respeitadas suas condições físicas, intelectuais e psíquicas, sendo proibida a discriminação e a fixação de limite máximo de idade, exceto quando o cargo exigir.

No setor público, o Estatuto do Idoso determina que o primeiro critério de desempate em concursos seja a idade, dando-se preferência aos candidatos de idade mais elevada. Além disso, é dever do Estado criar e estimular programas de profissionalização para os idosos, preparação dos trabalhadores para a aposentadoria e estímulo às empresas privadas para admissão de idosos ao trabalho.

O Estatuto do Idoso também dedica capítulos à Previdência e assistência social ao idoso, relativos à renda. Aos idosos, a partir de 65 anos, que não tenham meios para prover sua subsistência, nem de tê-la provida por sua família, é assegurado o benefício mensal de um salário mínimo, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), nos termos da Lei Orgânica da Assistência Social (Loas). Para ter direito, a renda da família não pode ser maior do que um quarto do salário mínimo por pessoa, o equivalente a R$ 238,50. O BPC não pode ser acumulado com outro benefício da Seguridade Social, como seguro-desemprego, aposentadoria ou pensão. Mas é possível recebê-lo junto com o Bolsa Família.

Está em discussão no Congresso Nacional uma emenda ao estatuto para que as empresas reservem um percentual de vagas para os idosos.

(Agência Brasil)

Bate-pronto 

 

Zilma Gurgel Cavalcante, gerontóloga, assistente social, professora e psicóloga

O POVO - Como a senhora analisa o idoso que mesmo aposentado permanece no mercado de trabalho?

Zilma Gurgel - Eu sou uma idosa de 75 anos que continuo no mercado de trabalho. A gente tem uma autoconfiança e uma fé em si mesmo, e esse sentimentos são os combustíveis mais importantes para você seguir em frente com sabedoria e força.

OP - Como isso auxilia no envelhecimento saudável?

Zilma - Você pode continuar trabalhando, mas é preciso reservar um tempo pra si mesmo. Reservar tempo para si mesmo é importantíssimo para o equilíbrio. Você também não pode viver somente para o trabalho.

OP - Como fica a pressão no idoso que ainda é o principal provedor?

Zilma - Mesmo o idoso que é provedor deve trabalhar os filhos para autonomia. É preciso criar os filhos para serem autossuficientes. Uma educação que você criou os filhos dependente, você falhou. Mas mesmo que ele tenha errado, e hoje ele é o provedor, é preciso um exame de consciência, e perguntar o que você pode consertar ainda.