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O mercado de trabalho a partir dos 60 anos

O Ceará é o sétimo estado com maior número absoluto de pessoas com 60 anos ou mais que permanecem ocupadas. Desde 2014, o Estado apresenta crescimento de 6,4% na quantidade pessoas ativas

01:30 | 09/11/2018
Maria Nelza Leite, 71, é aposentada há 20 anos e permanece trabalhando como secretária em um consultório médico (Foto: Gustavo Simão/Especial para O POVO)
Maria Nelza Leite, 71, é aposentada há 20 anos e permanece trabalhando como secretária em um consultório médico (Foto: Gustavo Simão/Especial para O POVO)
Às segundas e quartas-feiras, Maria Nelza da Silva toma o rumo do Meireles e cumpre em um consultório médico o expediente de secretária. Até dois anos atrás, a carga horária era a semana inteira. Aos 71 anos, Nelza vai completando 45 anos ininterruptos de trabalho - 20 deles já estando aposentada e 11 já depois do 60 anos.

Com a aposentadoria proporcional e por tempo de contribuição defasada pelos anos, o salário de secretária ajuda - e muito - a manter a suas despesas em dia. Mas Nelza garante que, além do sustento, o trabalho depois dos 60 é parte importante da sua rotina. "Estou no mesmo consultório há 20 anos, desde que me aposentei. Meu chefe e as pacientes são como parte da minha família. Meu trabalho é minha vida".

Nelza faz parte dos 248 mil cearenses que com 60 anos ou mais permaneciam ativos no segundo trimestre de 2018. Ceará é o sétimo estado com o maior número de idosos acima de 60 anos ocupados, atrás de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia, Paraná.

Os dados, referentes à Pesquisa Nacional por amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que houve entre o segundo trimestre de 2014 e igual período deste ano um aumento de 6,4% entre os idosos que continuam trabalhando. No Brasil, o crescimento no comparativo dos dois períodos é ainda maior - 19,4%.

Assim como Nelza, Maria Lúcia da Justa, a Malu, aos 64 anos e aposentada há três, continua batendo ponto na mesma instituição há 23 anos. Com uma das duas filhas ainda em idade universitária, despesas de planos de saúde, além do lazer com os netos, ela, que é a principal provedora da família, admite que a renda extra do salário somado ao aposento é uma mão na roda.

"Nunca me passou pela cabeça me aposentar, assim como não me passa agora deixar de trabalhar. Aposentei-me porque já tinha como me aposentar. E, na época, era mudança de governo Dilma (Rousseff-PT) e (Michel) Temer (MDB). Estava uma confusão de que ia mudar as regras, e eu pensei: 'Antes que não possa mais me aposentar, deixa eu me aposentar logo'. O aposentar foi mais um ato de exercício de direito. E como eu tinha direito de continuar trabalhando, quis", relembra.

O currículo da secretária, com dois cursos de ensino superior e passagem em nove empresas na Capital paulista, onde residia até 1992, somou-se ao último emprego, e agora a um novo passo: Malu montou uma associação para auxiliar idosos nos caminhos da maturidade e deve se dedicar em tempo integral. Abrir mão do salário a essa altura da vida, no entanto, veio com planejamento. Antes mesmo da aposentadoria, há nove anos, começou a pagar uma Previdência privada e deve começar a receber a renda complementar até próximo ano.

"Muitas vezes, o idoso é o único provedor da família. Justamente num ponto da vida em que as necessidades aumentam: os planos de saúde são muito caros, os remédios, os suplemento e vitaminas. Tudo é dispendioso. Para abrir mão de um salário extra é preciso readequar. Eu vou ter de fazer isso. Mas eu sou uma idosa ativa, protagonista, saudável, tenho minha autonomia, e posso exercer minha cidade como idosa. Mas ainda tem muito que não e é por isso que envelhecimento precisa ser preparado", indica.

DOMITILA ANDRADE