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O crime, segundo Carioca

Hoje aos 51 de idade, o homem que liderou o sequestro de dom Aloísio Lorscheider, em 1994, fala sobre as três décadas que viveu entre celas e fugas. Carioca diz que recebia R$ 13.700 de salário como chefe de facção. E que, desde outubro de 2017, soube que Gegê e Paca, líderes do PCC mortos no Ceará este ano, seriam punidos por traição

01:30 | 06/11/2018

FOTOS AURÉLIO ALVES
FOTOS AURÉLIO ALVES
Antônio Carlos de Souza Barbosa entra cabisbaixo à sala do diretor do presídio, trazido por agentes. Cumprimenta balançando a cabeça rapidamente. Veste o uniforme da cadeia: camisa branca de algodão, calção laranja, chinelas. Desde maio deste ano, foi transferido da Casa de Privação Provisória de Liberdade (CPPL 3) para o Instituto Presídio Professor Olavo Oliveira (IPPOO 2), em Itaitinga. Está ali por medida de segurança. Havia sido julgado pelo tribunal do crime para morrer, segundo ele próprio. Conta que acabou liberado pouco antes de tomar o chamado "coquetel da morte".

 

Poucos fios brancos no cabelo, o rosto já com traços envelhecidos, mas ainda o olhar expressivo - como na cena marcante de 24 anos atrás, quando fez refém o então arcebispo de Fortaleza, cardeal Aloísio Lorscheider. Ainda eram tempos sem internet, mas as fotos e filmagens dele com a faca no pescoço e no costado do religioso rodaram meio mundo. O nome de batismo, comum, foi eclipsado com o tempo pela alcunha pesada que adotou.

No crime, afamou-se como "o Carioca".

Pergunto como prefere ser chamado. Pelo nome ou o apelido? "Tanto faz, não tenho mais nada a esconder", responde. Carioca nasceu no Ceará. Ainda criança foi morar com os pais no Rio de Janeiro. O pai teria sido tenente-coronel da PM. A fala é com sotaque paulistano - dos mais de 30 anos que já viveu entre presídios, mais da metade foi em penitenciárias paulistas.

Quando jovem, Carioca garante que esteve nas Forças Armadas. Diz ter sido soldado da Aeronáutica, "a poucos meses" de se tornar oficial, mas teria saído expulso ao ser descoberto desviando armas e munições. Ao O POVO, a Força Aérea Brasileira nega que ele já tenha feito parte do contingente militar. Não encontrou nenhum registro com seu nome.

Escolhas de vida foram levando Carioca ao mundo cão. Roubou bancos, casas de câmbio, matou, liderou rebeliões, fugas de cadeias, sequestrou, foi chefe de facção criminosa no Ceará. "Graças a Deus, só nunca cometi estupro. Mas, tráfico, tudo...", afirma, invocando a fé em meio a tantos ilícitos.

SEQUESTRO DE DOM ALOÍSIO

No caso que lhe deu a maior notoriedade, em 15 de março de 1994, comandou um grupo de presos que manteve 11 reféns dentro do então maior presídio do Ceará, o Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS). Entre as vítimas estava dom Aloísio Lorscheider. O cardeal, que no fim dos anos 1970 chegou a ser indicado como possível sucessor do papa João Paulo I. Para Carioca, foi o refém imaginado como um passaporte para a liberdade. Mas virou o principal carimbo de sua biografia transgressora.

A cena é histórica: o cardeal jogado ao chão, imobilizado numa gravata de braço e uma faca que lhe espetava as costelas e o pescoço. Os olhos arregalados de Carioca - a tal expressividade mencionada há pouco - e o semblante assustado do religioso. Vinte horas de terror até um desfecho com todos os reféns vivos.

Carioca foi recapturado nove dias depois. As ideias para a fuga com os reféns eram outras, ele revela hoje: "Os planos na época eram pra nós invadir o aeroporto, pegar um avião". Dias antes, parceiros do lado de fora teriam desistido de explodir a muralha do IPPS. (Colaborou Demitri Túlio)

BASTIDORES 

As duas sessões de entrevista com Carioca foram no início de setembro (dias 4 e 11). A primeira durou 1h15min. A segunda, 35 minutos. Somadas as conversas preliminares, quase duas horas totalizadas nos dois encontros.

O primeiro pedido feito à Secretaria da Justiça, sobre a possibilidade de a conversa acontecer, foi dia 8 de agosto. No dia 28, a confirmação de que Carioca havia topado.

Carioca concedeu a entrevista sem algemas. Permaneceu calmo e sempre eloquente. Somente numa pergunta da 1ª sessão, pediu para não responder. No 2º encontro, não quis falar sobre nomes de comparsas.

Em reportagens de 1994, logo que foi preso pelo sequestro do cardeal Lorscheider, Carioca chegou a ser mencionado como condenado no caso Abílio Diniz. Porém, nunca houve aprofundamento a respeito.

O POVO falou com dois dos reféns do sequestro no IPPS: Mário Mamede, então deputado estadual, e Raimundo Brandão, à época coordenador estadual do Sistema Penal. Ambos hoje estão aposentados.

Mamede lembra de seu momento mais tenso no episódio. Disse ter sido ameaçado de morte por Carioca. "Ele dizia que não estavam brincando. 'Vamos dar um tiro na cabeça dele, jogar no pátio'. Fiquei olhando pra ele. Não pisquei o olho até que ele não me olhou mais".

Brandão depois tornou-se subsecretário da Justiça, que administra as penitenciárias estaduais. No dia, chegou a travar luta corporal com um dos detentos, quando o sequestro foi anunciado. Escreveu um livro sobre o caso: O pastor e os 12 reféns.

Após a entrevista, a pedido da diretoria do IPPOO 2, Carioca assinou um termo autorizando a publicação de suas declarações e das imagens.

CLáUDIO RIBEIRO