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Ciclo virtuoso de solidariedade com resgate de jovens na Tailândia

| RESGATE | Saber dos meninos vivos na Tailândia suscitou sentimentos de resiliência e gratidão

01:30 | 11/07/2018

Passagens estreitas, restrição alimentar, seis horas de mergulho em água turva para crianças que nem sequer sabiam nadar, a corrida contra o tempo devido à chegada das chuvas, o medo: tudo parecia sufocar um pouco mais. Mas foi diante da situação que em tudo se anunciava como tragédia, que uma comunidade inteira, aguerrida e solidária, transformou o improvável em respiro, em vida.

Entrevistas de profissionais que mantiveram contato com os garotos falam de força e serenidade inacreditáveis. Distantes quatro quilômetros da entrada da montanha e 800 metros abaixo da superfície, eles juntos emanaram serenidade aos que os esperavam.

Em acampamento dividido em setores, pessoas colaboraram preparando alimentos para os pais e para as equipes de salvamento; outras se dispuseram a limpar os banheiros improvisados; amigos da comunidade se reuniram para colaborar financeiramente com familiares que tiveram de deixar o emprego para acompanhar as buscas. Das 90 pessoas que integraram a equipe de mergulho, 50 eram de outros países.

“Esses momentos afloram muito, porque faz com que eu veja no outo aquilo que podia ser comigo. Acontece o momento da empatia, que é a capacidade do ser humano de se colocar no lugar do outro e perceber o sofrimento do outro — que é diferente de sofrer pelo outro”, explica a psicóloga mestre e especialista em Tanatologia (estudo científico da morte) e Emergências e Desastres, Giselle Sucupira Mesquita. A especialista ressalta que toda a condução do regate levou em consideração o respeito pelo outro. Para ela, uma rede de salvamento construída por muito mais do que 90 pessoas.

Parte de um povo conhecido como modesto e respeitoso, familiares sequer questionaram o sigilo das primeiras crianças salvas. As autoridades só divulgaram nomes quando todos haviam sido resgatados por respeito às famílias dos que continuavam presos.

Conforme a BBC, há um ditado tailandês que diz: “Evitarás ofender a quem te ajuda pedindo mais do que este lhe dá”.

Para a psicóloga e pedagoga Eveline Rodrigues Câmara, o aspecto cultural de empatia e resiliência foi um dos fortes colaboradores para o sucesso no salvamento. “São um povo que, por uma questão cultural, trabalha muito essa questão da humanização. É como se todo mundo se colocasse, subjetivamente e simbolicamente no lugar desses personagens, seja das crianças, seja do professor, seja da famílias, que estão em sofrimento”, diz.

Eis, então, que mesmo antes do desfecho, a rede de boas vibrações e notícias positivas se espalhou. De uma forma ou de outra, todas as pessoas começaram a se perceber dentro desse círculo virtuoso de empatia. “Foi importante que tenham percebido a importância de essas crianças se comunicarem por meio de cartas e vídeos, permitiu a elas esse elo com a vida fora”, pondera Eveline.

Fábio Gomes de Matos, psiquiatra, avalia que o salvamento exemplificou o que existe de melhor na humanidade: a compaixão, a caridade e a solidariedade. Ele aponta que há um grande potencial de bondade no ser humano. E foi por tudo isso que, logo nas primeiras horas da manhã de ontem, a notícia do resgate tomou conta das redes sociais, dos jornais, das conversas. É que foi a coisa uns queriam dizer aos outros: estão todos vivos, estão todos bem.

EDUARDA TALICY