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O risco de sumir na mão do crime

| COTIDIANO | A história de duas jovens em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, revela um rastro de pelo menos 26 assassinatos e o fenômeno do desaparecimento de pessoas nas comunidades invadidas pelas facções no Ceará

01:30 | 13/06/2018

As periferias de Fortaleza e da Região Metropolitana viraram lugares de desaparecer pessoas. Sumir se tornou parte do cotidiano. O fenômeno, não percebido no lado mais assistido da cidade, ganhou contornos de terror na zona empobrecida. Foi depois que as facções criminosas passaram a se inscrever como poder na disputa dos territórios pelo tráfico de drogas no Ceará, notadamente a partir de 2015. Por medo de represália ou envolvimento direto com o crime, as histórias dificilmente são narradas em boletins de ocorrência ou chegam aos organismos públicos que lidam com vítimas da violência urbana no Estado.

 

A vida de quem mora nesses cantos “sombreados” pelo medo passou a ser um inferno. Principalmente para os cidadãos, mas também para os criminosos. O POVO conta, a partir de hoje, narrativas sobre desaparecidos e o tormento de ter de conviver com a possibilidade de sumir nas mãos das facções de traficantes. 

Sexta-feira, 13 de dezembro de 2017, 18h17min. Na sede da Delegacia de Polícia Metropolitana de Caucaia, um pai, de 37 anos, relata que a filha, Vitória Rayane Ferreira, está sob ameaça de uma facção. É que a garota, de apenas 13 anos, havia testemunhado o assassinato da amiga Antônia Monalisa Fernandes, 14 anos. A garota também está na delegacia. 

Para uma delegada e uma escrivã, o pai de Rayane conta que a filha, após se encontrar com a amiga Monalisa, teria ido para uma festa em uma praia do litoral de Caucaia (Região Metropolitana de Fortaleza). Saiu, segundo o pai, sem seu consentimento. Apesar dos 13 anos, ele diz, a filha “tinha o costume de sair sem dizer para onde ia”. E sempre foi “uma peleja” para que informasse o destino e de quem se acompanhava. 

Naquela sexta de dezembro a história mudaria de enredo. Segundo depoimento do pai, um dia depois de ganhar o mundo, Rayane “voltou assustada para casa”. Era madrugada do sábado, por volta das 5 horas. “Pai, me bota eu pra dentro que mataram a Monalisa agora. Se não, vão me matar também”, reproduziu o pai na delegacia. 

Rayane, de acordo com depoimento, afirnou que pelo menos nove pessoas, entre elas mulheres, participaram da execução de Monalisa. A garota foi assassinada e o corpo ocultado “por causa de facção”. 

 

Mas a causa não é clara no inquérito. Entre os matadores estariam um homem conhecido por “Mateus e outro por GTA”. 

Na delegacia, a adolescente, ouvida em termo de declaração e numa conversa confusa, afirma que Monalisa depois de ser executada foi levada para ser enterrada “pro lado do Bom Jesus”, uma bairro de Caucaia. E que “vocês (os policiais) não vão encontrar o corpo dela inteiro, não”, disse. 

Sem proteção do Estado na condição de testemunha, adolescente e moradora de uma comunidade tomada pelo ódio entre facções, Rayane foi assassinada no dia 28/12/2017. Semanas depois de ter ido à delegacia. O pai da menina e outros familiares, segundo o escrivão Josenildo Menezes, 54, tiveram de ir embora do Ceará. 

Os restos mortais de Monalisa só foram encontrados este ano, no dia 12/4, durante a Operação Soure – protagonizada pela Delegacia Metropolitana de Caucaia. A garota foi esquartejada e parte do corpo ocultado em um terreno próximo ao prédio da Justiça, em Caucaia. Os policiais chegaram ao local depois da prisão e confissão de Francisco Fábio, 20. Um dos autores das barbáries. 

O caso das adolescentes Rayane e Monalisa, de acordo com o Josenildo Menezes, é uma das pontas de uma teia criminosa que revelou a relação entre pelo menos 26 execuções. Muitos dos assassinatos precedidos pelo desaparecimento das pessoas, no caso seis. Vítimas que tinham ou não envolvimento na disputa entre as facções Comando Vermelho (CV) e Guardião do Estado (GDE) pelo território do tráfico, principalmente, nas comunidades de Itambé I e II, na periferia de Caucaia.

 

HOMICÍDIOS

 

522 crianças/adolescentes foram mortos no Ceará em 2017 

48 foram assassinadas, no ano passado, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza 

15 foram executadas primeiro trimestre de 2018 em Caucaia  

 

SEM B.O. 

Em 2015, com fim do pacto de “paz” entre as facções no Ceará, pessoas começaram a desaparecer nas comunidades. Rivais passaram a sequestrar inimigos e sumir com os corpos. No meio do terror, cidadãos também somem por cisma dos faccionados; desconfiança de de deduragem à polícia ou quebra de regra imposta na favela. O medo impede o registro dos desaparecimentos em boletins  de ocorrência.  

 

OS PASSOS DA BARBÁRIE UMA TESTEMUNHA foi à Delegacia Metropolitana de Caucaia e, a partir dela, a Polícia Civil conseguiu localizar, em 9/11/2017, o corpo do africano Francisco José Barbosa de Oliveira Filho, conhecido por Wesley. Depois de morto foi enterrado sob o piso de uma casa no bairro do Itambé. WESLEY TERIA SIDO MORTO, segundo o escrivão Josenildo Menezes de Caucaia, pelo grupo do traficante Felipe dos Santos Gomes, 23, do Comando Vermelho. A vítima teria uma dívida de drogas. O corpo estava carbonizado e a genitália teria sido decepada. DE ACORDO COM JOSENILDO Menezes, a descoberta do corpo do africano, o cruzamento de informações sobre outros homicídios com depoimentos revelaram, pelo menos, 26 execuções, entre as facções Comando Vermelho e Guardiões do Estado. Uma guerra pelo domínio do território do tráfico em Caucaia. COM A DESCOBERTA do corpo de Wesley foram presos: Felipe, Mofado, Jacaroa, Mateus, Playboy, Mateus, Rato. Todos do CV. Com a prisão deles, a Polícia Civil chegou aos corpos de mais cinco homens que estavam desaparecidos. AS INVESTIGAÇÕES se transformaram na Operação Soure que, no último dia 12/4, cumpriu 150 mandados de prisão, busca e apreensão. Para a delegacia Metropolitana de Caucaia foram levados mais de 40 presos. Vinte ainda estavam lá até o último dia 18/4. Os outros 20 tinham sido transferidos para os presídios. TAMBÉM FORAM PRESOS integrantes da GDE. As prisões resultaram na descoberta de outros assassinatos. Entre as execuções, duas adolescentes. Monalisa Fernandes, 14 e Vitória Rayane, 13 anos. ANTÔNIA MONALISA Fernandes de Menezes, 14, estava desaparecida desde o ano passado. O corpo, esquartejado, foi encontrado em 12/04/2018, em Caucaia. Parte dos restos mortais foram ocultados em um terreno próximo ao prédio da Justiça. Os policiais chegaram ao local, depois da prisão e confissão de Francisco Fábio, 20. VITÓRIA RAYANE FERREIRA, 13, que foi à delegacia testemunhar o assassinato de Monalisa, foi assassinada no dia 28/12/2017 por criminosos da GDE. A família se mudou do Ceará, segundo o escrivão Josenildo Menezes. FORAM PRESOS DA GDE: Pimba, Zidani, Carlos Henrique Gaspar de Oliveira (Pirata), Carlos Alberto Silva de Lima, Francisco Yuri Rodrigues do Nascimento, Wesley de Abreu Araújo (Macaco ou Boy), Ana Paula Oliveira da Silva (está solta porque estava grávida). José Romário Silva Barbosa, Anderson do Nascimento Silva, Tiago de Sousa Morais, Jéferson Morais Moreira de Oliveira. 

DEMITRI TúLIO