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No Dia dos Namorados, jornalistas escrevem cartas de amor pelos cantos de Fortaleza

Mensagens foram escritas a pedido de pessoas que passavam por lugares da Cidade

01:30 | 12/06/2018

Querida Cidade,


Faz tempo que não te chamo de querida e que não te escrevo estas sentimentalidades. É que tu foste te tornando outra, e eu quase não te reconheço como aquela que me fazia feliz. Mas esta é uma carta de amor e amor não tem ressalvas. Acontece que ainda amo a tua alegria e te amo pelas tuas ilusões perdidas.

[SAIBAMAIS]

Soube disto, mais uma vez, porque o jornal me pediu que eu andasse por ti para escrever cartas de amor grátis. Então, fui ao Passeio Público e à Praia de Iracema, lugares de todos os amores, e fui também por Bethânia, por Chico, por Roberto, por Caymmi... E me demorei em ti; sem querer, te namorei de novo.


Nestas andanças, entre o jornalismo e o amor, conheci a saudade de Jorge por Patrícia, a falta que Giovane faz a Sandra, as canções que existem em Pamela por causa de Júnior, o bem-querer simples e feliz de Marilene e Adriano. O amor é mesmo tão bonito quanto o pôr do sol que vi a partir do teu mar, Cidade, enquanto escrevia o sentir dos outros.


E como é difícil dizer o sentir! Fiquei duas tardes esperando remetentes, mas quem ainda escreve cartas de amor em tempos de “zaps” e de beijos abreviados (bjos)? A pauta dizia que eu fosse feito uma Dora, a professora aposentada do filme Central do Brasil, que ganhava o do dia ao escrever cartas na estação carioca. O desejo eterno da realidade: ser ficção, poesia, salvar-se de alguma forma.


Mas não é que tem vida que parece um filme? Mando-te, nestas páginas de junho, romances que duram o tempo de uma carta.


Termino por aqui, porque sempre tenho pressa de viver as coisas novas — que também são boas. Me desculpe escrever, sem bem pensar, estas mal traçadas linhas. É porque escrevo como quem ama e amar não é pensamento, é conjugação. Vamos nos ver outra vez, quem sabe, há muito tempo estou longe de ti. Por ora, eu preciso dizer: eu vi teu infinito, Cidade, e, por causa de ti, sei onde me encontrar.

[FOTO1]

 

 

De: Jorge

Para: Paty

em Porto Velho


AMOR DE UMA EXISTÊNCIA


Jorge Luís Ribeiro dos Santos, 43 anos, conhecido como Jorge Pipoca ou Jorge Poroca (a depender se anda pelo Centro ou pela Cidade 2000, respectivamente) e que trabalha, “hoje em dia, vendendo pipoca, jujuba, pra sobreviver com dignidade”, só leva consigo o material de trabalho e uma história de amor. Diz que a mãe lhe deu uma casa no bairro Cidade 2000, mas ele e o irmão brigaram e Jorge mora nas ruas. Na noite anterior a esta entrevista, ele emenda, roubaram-lhe as pipocas e as jujubas enquanto dormia na Praça do Ferreira. Restava-lhe a história de amor, que não lhe podem tirar.


“Era uma vez”, principia-se, “eu estava em casa, tomando umas biritas e, de repentemente, pensei: rapaz, vou comprar um cigarro”. Foi quando, “na pracinha da 2000”, parou no olhar de Patrícia, uma moça de Porto Velho, Rondônia, filha de um bancário transferido para cá, que sonhava em ter um filho aos 31 anos e estudava para passar no concurso do banco, restaura Jorge: “Quando bati o olho, teve o contato visual. É flashback que chama?”.


É o amor de uma existência, abriga-se Jorge. Os dois viajaram juntos para Manaus, Jorge trabalhou no comércio e até tiveram um filho. “Somos casados, espiritualmente, há 19, 20 anos. Nos consideramos amantes”, faz a ponte até onde Patrícia mora. Jorge, que estudou até a sexta série e fala bem porque lia as colunas do jornalista Neno Cavalcante, explica a distância: não ficou em Porto Velho porque o pai dela sempre foi contra o relacionamento.


A última vez que ele viu Patrícia foi em fevereiro passado, fecha os olhos de saudades. “Música que não posso nem escutar: a do Crepúsculo. Porque diz tudo”, tenta balbuciar a letra de “A Thousand Years” e volta a chorar. O médico da depressão já lhe disse que ele é assim: vai do 8 ao 80. Então, o ambulante evita a voz de Patrícia porque, quando liga, “bate aquela deprê”.


Jorge vai deixando os estilhaços desse amor pelas ruas da Cidade. A cada 11 meses, quando espera reencontrar Patrícia e passearem na praia, ele junta as saudades, entornadas nos bancos e chãos, e se refaz. Até lá, mora nesta história que conta. É tudo o que lhe pertence.


Passeio Público, 4 de junho de 2018

 

Querida Paty,


Sinto saudades hoje, o passado não me importa. Acordei com muitas saudades suas. Todo dia me lembro de você, você sabe. Nosso amor sempre será correspondido, passe o tempo que passar.


Gostaria de saber como está nosso milagre, nosso filho.


Já é quase hora do pôr do sol e eu estou no Passeio Público. Tudo me lembra você.


Você sabe que essas palavras não chegam nem perto de lhe dizer o sentimento que tenho por você. Que você saiba: darei o máximo de mim para estar com você.


Com amor,

Jorge.

 

De: Sandra Para: Giovane

no Álvaro Weyne

 

AMOR MANSO


Sandra, 45 anos, que se chama só assim mesmo e trabalha por ali, entre o bar da esquina das ruas João Moreira e Major Facundo e o Passeio Público, se aproximou querendo falar sem dizer as palavras feitas para sangrar. “Minha história é triste”, começa pelas beiradas, evitando transbordar. Sandra ama Giovane — 48 anos, com quem passava o pernoite e passeava na Praia de Iracema —, mesmo quando o amor vacila.


Na tardinha desta entrevista, com o corpo ainda marcado pela presença de Giovane, Sandra contava 15 dias sem ele, sem o Scooby e sem os detalhes de um amor manso, que lhe chegou do nada e também nada perguntou. “Conheci ele nesse bar da esquina. Ele tava bebendo sozinho, e eu fui a única pessoa que ele aceitou sentar na mesa”, une.


Daquele encontro, namoraram um ano como se fosse para sempre. Sandra dormia em um motel perto do bar e, às seis horas da manhã, antes de ir para o trabalho, Giovane passava para acordá-la. “Eu sentia uma paz... Eu tomava banho bem ligeiro e a gente ia merendar”, revive. “Ele vinha pra cá sexta ou sábado, passar o pernoite. Todo sábado, domingo de manhãzinha, a gente ia passear na Praia de Iracema, ia pro Mercado São Sebastião, que eu acho bonito lá”, guarda.


Do jeito deles, se casaram. “Um dia, ele disse: vou levar tu lá pra casa, apresentar pra minha mãe”, ela sorri. Moraram juntos cinco anos, no vão de cima. “A mãe dele me adora porque eu zelo pelas coisas dele e por ele”, ressente. O coração ateu de Sandra acredita que ela e Giovane são o amor um do outro: não é mais possível negar que se pertenceram. Mas discutiram, e Sandra voltou para o bar.


Agora, entre a esquina e o Passeio Público, ela ronda as faltas e as palavras, a procurá-lo. E quer que Giovane encontre o riso que já houve nela por causa dele. Manda escrever que voltou a morar no mesmo motel daquelas manhãs, que é para ele não se perder dela.


Passeio Público

4 de junho de 2018

 

Giovane,


Vou começar esta carta pelas saudades que eu sinto de você e da nossa casa. Tudo me faz lembrar nós dois: o Scooby, que é o nosso cachorro e estava sempre por perto, e das tardes quando a gente ficava sentado em frente à nossa casa, conversando sobre a vida.


Estou escrevendo esta carta porque quero lhe explicar que estou arrependida de ter saído de casa. Sinto muito a sua falta, de todo o meu coração. E também sei que você sente a minha falta. É uma bobagem ficarmos separados quando somos o amor um do outro.


Voltei a morar no lugar onde você me conheceu porque, assim, você sabe o endereço de onde me buscar.

 

Volte para mim, que eu volto para você.


Com amor,

Sandra

 

[FOTO2]De: Pamela


Para: Júnior

no espigão da Praia dos Crush

 

AMOR DAS DELICADEZAS


Pamela Martinez, uma argentina de 30 anos, fotógrafa e artista mambembe que viaja pelo mundo com duas cadelas — Bela e Terra — e uma escaleta (instrumento musical também conhecido como melódica), conheceu um novo amor de passagem pela Bahia. “Foi como uma renovação de energia”, compreende.


Pamela já sentia saudades de amar, confessa. O rapaz da Bahia foi até os submersos, explorou a alma, os desvãos onde Pamela mantinha ecos de antigas palavras, fragmentos de uma poesia que só o amor faz da vida. Um com o outro aprendeu que é preciso amar para entender de amor e que, necessariamente, o amor liberta. “Foi como abrir as portas de novo e aprender a amar”, navega Pamela. Então, cada um seguiu sua própria viagem até que Pamela, Bela, Terra e a escaleta aportaram na Praia de Iracema há quase dois meses.


Pamela, que anda com a canção, sabe que todo amar é grande e cabe em uma barraca na beira da praia. Perto do Aterrinho, onde o pôr do sol mais bonito da Cidade sinaliza ser a Praia dos Crush, ela conheceu Júnior, outro artista, outro amor, que mora em uma barraca ao lado do espigão. “É uma pessoa encantadora, com uma energia muito positiva. Um amor sincero, de compartilhar o dia a dia”, ela ilumina. É o amor das delicadezas. “Realmente, é um companheiro”, completa-se.


Júnior é um dos motivos que fazem a artista mambembe ficar mais tempo em Fortaleza. “Vim por cinco dias e estou ficando”, diz, sem saber onde esse amor vai dar. Um dia, escreve a Júnior e ao tempo, talvez ela volte para o mundo — o lugar que escolheu desde que saiu da Argentina, há dois anos. Seja como for, todo amor, do tanto que houver, ela guarda dentro de si.


Praia de Iracema, 5 de junho de 2018


Júnior,


Eu me sinto grata ao mar por tê-lo encontrado. Pensando em uma palavra que possa continuar esta carta, a que me vem à mente é amor. Porque entendo que amor é essa entrega de um ser humano para outro, sem esperar nada em troca. E é, exatamente, isso que acontece com a gente.


Não sei o futuro, o que sei é o hoje e, neste presente, você se soma a mim.


Um dia, talvez, eu volte para o mundo também. Então, poderemos seguir juntos, mas, se não for assim, você seguirá em meu coração.

 

Pamela.

 

De Marilene para Adriano, na Colônia

A manicure Marilene Gomes de Oliveira, 46 anos, mãe de dois filhos de um relacionamento passado, ama o vendedor de cigarros e bombons Adriano Carvalho, que foi atrás dela em Bela Cruz (231,4 quilômetros de Fortaleza), como se amasse a primeira vez. Para Marilene, nada pode ser mais lindo do que o amor dos dois.

“Uma coisa bonita que tem entre nós foi no primeiro ano que a gente tava junto, que eu mandei fazer um CD pra ele e ele ficou muito emocionado. Era um CD com as músicas que ele gosta, Limão com Mel”, ela demarca. Adriano também corresponde: “Quando ele tem, compra uma lembrancinha, uma caixinha de chocolate”, agrada-se Marilene.

Os dois são casados há quase seis anos. Passa o tempo e ela não se esquece de amá-lo. “Eu acho, assim, que eu me apeguei a ele porque eu gosto muito da família dele e a família dele gosta muito de mim. E também como eu não tenho pai e nem tenho mãe, ele preencheu”, Marilene se emociona.

Ela conta que o amor deles é como manda a receita, na medida perfeita. Conversam muito, até ela amenizar os problemas dele e, quando se abraçam, tanta coisa se passa que não dá pra falar. “Somos felizes”, extrai Marilene. “O segredo para ser feliz (em um relacionamento) é união, a sinceridade e serem muito amigos”, credita.

Todo dia Marilene diz que é para Adriano se cuidar, lhe sorri um sorriso pontual e lhe jura eterno amor. Um amor cotidiano e tão simples que ela quis dar a ele, neste Dia dos Namorados, as palavras feitas presente. (Ana Mary C. Cavalcante)
 
Praia de Iracema, 5/6/2018.

Meu Nego,

O que eu gostaria de lhe dizer, neste momento, é que você pudesse me ouvir mais porque eu quero o seu bem sempre. Estou lhe escrevendo esta carta para que você tenha a certeza do meu amor por você. É um amor tão grande quanto o tamanho do mar da Praia de Iracema e tão bonito quanto o pôr do sol que acontece todos os dias.

Mando esta carta para lhe lembrar aquele passeio que fizemos no Interior e que se tornou inesquecível.

Parabéns por este dia especial, o Dia dos Namorados. Viver este dia ao seu lado é não envelhecer. Amo você como se fosse ainda a primeira vez.

Marilene.

ANA MARY C. CAVALCANTE

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