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Em penitenciárias do Paraguai, criminosos difundem 'regra' da facção

01:30 | 05/06/2018

Não há ainda uma contagem, mas autoridades brasileiras já apontam a presença marcante de brasileiros nos sistemas prisionais de países vizinhos, difundindo ensinamentos pregados pelas organizações criminosas. O crime produto exportação, made in Brasil. A morte de Rafaat evidencia a expansão territorial da marca PCC. As mortes de Gegê e Paca são reflexo da briga interna da facção, mas provam o suporte transnacional montado. O Ceará é uma ponta muito próxima do Brasil para África e Europa, rota de saída. Desde que saiu do presídio, em fevereiro do ano passado, Gegê vivia na ponte aérea Brasil-Bolívia-Paraguai-Colômbia. O Ceará era a novidade no seu itinerário.
 

As sequelas apareceram. “A morte do (Jorge) Rafaat destrancou a fronteira”, afirma Adilson Gutierrez, promotor de Justiça Militar em São Paulo, sobre a execução do barão do tráfico na fronteira Brasil-Paraguai. Ele associa a execução do narcotraficante à violência além-fronteira que se verificou nos meses seguintes pelas penitenciárias e nas metrópoles brasileiras. “Você percebe que desde 15 de junho de 2016 pra cá aumentou a violência entre as facções? Aumentou o fluxo de drogas e armas também”. À época do nascimento do PCC nas cadeias paulistas, Gutierrez era oficial da Polícia Militar em São Paulo. O Ministério Público Militar fiscaliza a atuação das Forças Armadas em áreas divisórias.
 

De São Paulo, Gutierrez acompanha planos de inteligência contra ações criminosas pelo País. A cobiça pelo espólio de Rafaat teria sido um dos pavios na guerra das facções dentro dos presídios brasileiros nos dois últimos anos. No curto período entre dezembro de 2016 e fevereiro de 2017, quase 150 presos foram mortos dentro de unidades prisionais. As massas carcerárias se digladiando representariam a demonstração de poder das facções. Os faccionados nem a par do episódio no Paraguai, reagindo conforme o nível de tensão do momento.
 

“Não foi a morte de Rafaat que necessariamente iniciou a briga entre PCC e Comando Vermelho na disputa por aquele lugar importante para o tráfico. Mas (a execução) alterou a configuração do crime nacionalmente. Acabou repercutindo nos índices de violência no País inteiro. Porque era ele que controlava a fronteira. Era a mão forte na região e isso dava certa paz social”, reconhece a promotora de justiça Cristiane Mourão, coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) no Ministério Público de Mato Grosso do Sul. (Cláudio Ribeiro)

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