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UPAs funcionam como UTIs em Fortaleza

| SISTEMA DE SAÚDE | Ampliação de leitos de terapia intensiva não acompanha a demanda. Assim, Unidade de Pronto Atendimento (UPA), caracterizada como pré-hospitalar, acaba tendo que permanecer com pacientes fora do perfil

01:30 | 09/05/2018

Duas histórias que tiveram o mesmo meio e fim: pacientes que foram para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em condição grave de saúde ficaram até 15 dias internados à espera de um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), entraram na Justiça em busca do direito, conseguiram, mas morreram. O Ceará ampliou a quantidade de leitos de terapia intensiva em 29% nos últimos seis anos. Mas ainda não é suficiente, e as unidades de urgência e emergência, como as UPAs, ainda servem como anteparo.

[SAIBAMAIS] 

Na Capital, conforme a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), a atual lista de pacientes à espera de um leito de UTI em UPAs chega a 60 pessoas. A média de espera é de sete dias; a de transferências é de seis pacientes diariamente.


“O AVC (Acidente Vascular Cerebral) deixou minha mãe inconsciente. Dava para perceber que ela conhecia as pessoas, mas ficava só gemendo”, conta o auxiliar de almoxarife Manoel Adenildo dos Santos, 25. Foi nesse estado que ele viu a mãe, Maria Marlene de Carvalho, 68, ficar por 12 dias internada na UPA da Praia do Futuro.


A unidade, caracterizada como pré-hospitalar, só deveria abrigar pacientes por no máximo 24 horas, como determina resolução de 2014 do Conselho Federal de Medicina (CFM). “Começamos a brigar porque não tinha condições de ela ficar daquele jeito”, lembra Manoel.


Desde que entrou na UPA, a paciente já precisava de um leito de UTI. Conforme o filho, o que ele ouviu dos médicos foi que as tentativas de transferência da mãe eram negadas devido ao perfil. “Diziam que o outro lado não explicava o porquê”. Com um relatório fornecido pelos médicos da UPA, Manoel buscou a Defensoria Pública do Estado (DPE) e, em três dias, a mãe foi transferida para um hospital. Lá, acabou ficando em uma enfermaria de cuidados especiais e morrendo em menos de um mês. “Ela já foi para lá quase morta”.

 

Um direito assistido. Mas que desnuda problemas de estruturação do sistema de saúde. As UPAs ampliaram as portas de entrada da urgência e emergência. São 33 equipamentos do tipo no Ceará, 11 em Fortaleza. “Na UPA chegam pacientes com parada cardiorrespiratória, insuficiência respiratória, em coma, com insuficiência renal aguda. Que precisam ser entubados, precisam de ventilação mecânica e configuram perfil de UTI. São ocorrências diárias”, conta uma médica que trabalha na UPA Cristo Redentor, no Pirambu, que preferiu não se identificar.

 

Mesmo sem ter essa prerrogativa, a Unidade de Pronto Atendimento possui equipamentos de uso rotineiro em UTIs, como ventiladores mecânicos e bombas de infusão de drogas vasoativas.


“Os pacientes que precisam de vagas de UTI só poderiam ficar um dia na UPA, mas acabam ficando vários. O que define esse tempo é a judicialização das vagas. Se o paciente tem indicação de UTI e não tiver uma ordem judicial, vai passar muitos dias na unidade. Hoje, a maioria dos pacientes da UPA só consegue vaga com ordem judicial”, detalha a médica.


“Faltou dimensionamento dessa política. O que está acontecendo é um represamento de pacientes que têm indicação de UTI na UPA”. A avaliação é da professora do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da UFC, Magda Moura de Almeida. Ela pondera ainda que as portas de entrada do sistema de saúde tendem a ter profissionais de saúde sem muita experiência, o que repercute na falta de conhecimento de alguns quadros de intervenção.


“Tem ainda a iatrogenia, que são as condutas erradas. Um paciente que precisa ser entubado, o médico inexperiente nesse procedimento pode, por exemplo, tentar várias vezes, e o paciente vir óbito”, detalha a especialista.

SARA OLIVEIRA

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