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São José e a esperança de boas chuvas

Padroeiro do Ceará, São José é celebrado no dia 19 de março. Tradição popular atribui chuvas na data à perspectiva de um "bom inverno"

01:30 | 19/03/2018
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Homenageado no dia 19 de março, São José é o homem do silêncio. Simples, humilde, justo e trabalhador, não há muitos detalhes sobre a vida dele nos Evangelhos. O carpinteiro estava noivo de Maria, contudo, antes do casamento, Maria engravidou. Porém, José escolheu não denunciar publicamente a suposta infidelidade da noiva, como mandava a tradição judaica da época. Até que em sonho, um anjo lhe avisou que não temesse receber Maria como esposa, pois o bebê tinha sido concebido pelo Espírito Santo. Assim, se casou com ela, tornando-se o pai humano de Jesus Cristo.

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Para a Igreja Católica, o santo tem papel fundamental na história da salvação. “José é o elo entre o Antigo e o Novo Testamento e o último dos patriarcas. A missão de José na história da salvação constitui em dar a Jesus um nome, fazê-lo descendente da linhagem de Davi, como era necessário para cumprir as promessas”, explica o padre redentorista Brendan Coleman Mc Donald, assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

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São José faz parte da Sagrada Família e é patrono da Igreja Católica, das famílias, das viúvas, dos tesoureiros e dos trabalhadores. No Ceará, a devoção também representa a esperança em boas chuvas, manifestada em missas, novenas e procissões. Além do Estado, o santo é padroeiro das cidades de Aquiraz, Catarina, Granja, Maracanaú, Missão Velha, Potengi, Salitre e Ubajara. Conforme o padre Gilson Soares, pároco da Igreja Nossa Senhora das Graças, no bairro Vila Manoel Sátiro, como o santo já era padroeiro de Aquiraz, a primeira capital do Ceará, acabou sendo escolhido como protetor de todo o Estado.


A labuta dos agricultores e a relação entre São José e as chuvas já foi cantada nos versos de A triste partida, de Patativa do Assaré, e de Sinal de Inverno, de Eudes Fraga. No entanto, a origem dessa conexão é incerta. Para o padre Gilson, essa associação pode ter acontecido pelo fato de a festa do padroeiro coincidir com um mês de chuvas.

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Na visão do pesquisador em cultura popular e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará (UFC), Gilmar de Carvalho, os relatos míticos se entrelaçaram ao longo do tempo. “Sempre tivemos uma relação difícil com a escassez da água e tensa com a incidência das secas. Elas (as secas) estão registradas desde o século XVII, bem antes dos desmatamentos, da poluição ambiental, dos resíduos de carbono na atmosfera, do aquecimento global. São José coroa este processo. Ganhamos um padroeiro que faria com que a água viesse em abundância (no nosso imaginário), que é artesão e nos cobre de bênçãos”, afirma.


Cientificamente, chuva no dia de São José não garante boa quadra chuvosa. De acordo com o meteorologista Raul Fritz, da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), em 2009, por exemplo, dos 184 municípios, choveu na data em apenas 59 cidades e, mesmo assim, a quadra chuvosa ficou acima da média histórica. Já em 2017, choveu em 74 e a quadra terminou dentro da média. No Ceará, o período de fevereiro a maio corresponde à época em que a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) se desloca mais para o sul do Equador, na região do oceano Atlântico tropical, trazendo chuvas para o norte do Nordeste.


O dia 19 de março coincide ainda com a véspera do equinócio de outono, quando começa o outono no hemisfério sul. “Como o Sol esteve aparentemente sobre o Hemisfério Sul desde o verão (dezembro) até o outono (março), espera-se que as águas superficiais oceânicas do Atlântico Tropical Sul tenham se aquecido mais do que as águas do Atlântico Tropical Norte, proporcionando melhores condições para a atuação da ZCIT sobre o norte do Nordeste. É importante ressaltar que, isso, na realidade, não é um processo simples que dependa apenas desse fator”, explica Fritz.


Apesar do posicionamento científico, a fé dos agricultores permanece. Ainda com oito anos, o agricultor Diocleciano Ferreira da Silva, 67, começou a trabalhar na terra para ajudar os pais. Natural de Riacho Fundo, sítio no distrito de Santa Fé, na zona rural de Crato, Diocleciano conta sobre a devoção ao santo. “São José na mente dos agricultores é sinônimo de chuva e de bonança”, afirma. Segundo ele, a cada ano, a esperança de homens e mulheres do campo é de que até a data venham as “enchentes de São José”, trazendo chuva com muita intensidade para sangrar açudes e permitir o armazenamento de água.


Para os devotos, a data marca a derradeira esperança. “A água é tão importante para o Ceará que esta relação entre as chuvas e São José faria dele sempre, em qualquer circunstância, mesmo que o padroeiro fosse outro, uma referência. A festa dele, dia 19 de março, é o limite da nossa esperança. Não choveu até lá, resta-nos esperar pelo ano seguinte. Mesmo que não chova, nossa tristeza e nosso desamparo não se projetam no santo. Em nenhuma hipótese, ele é responsável pela calamidade que se instala. E cantaremos o seu bendito, acenderemos velas e marcharemos em procissão pelas ruas”, declara Gilmar de Carvalho.

 

LÍVIA PRISCILLA

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