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De volta pra casa. O antes, o durante e o depois

01:30 | 07/03/2018

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Foram dois anos de espera. Outros tantos de tentativas. Ana não sabe quando, ao certo, o filho foi capaz de matar. “Somos cidadãos, o pai dele tem 20 anos de carteira assinada. Não tem briga na minha casa, não tem nada que ele possa se espelhar para ser essa pessoa”, conta. João, hoje com 18 anos, foi apreendido aos 16 por ato infracional análogo a latrocínio. Antes, já esteve em centros socioeducativos outras 14 vezes. Para a mãe, as amizades o levaram para um caminho não desejado. Assim como o filho mais velho, 26 anos, que está preso por roubo.
 

Conselhos, conversas, convites para ir à igreja, a batalha para que João tivesse tudo que era possível com a venda dos lanches na calçada. Era importante mostrar que ele não precisava roubar. “Eu tirava da minha goela, mas se queria celular bom eu dava. Queria um notebook, tudo na minha casa ele tem. No quartinho dele tem televisão, som, merenda…”, relaciona a mãe. 

 

E não há culpa. “Ele nunca abriu a boca para me culpar”, ressalta. Para ela, a principal forma de fazer o filho acreditar que o crime não compensa é não desistir dele, antes, durante ou depois.
 

Cumprindo uma medida de internação por 24 meses, João foi para casa antes do Natal no ano passado. A mãe, que toda semana ia à Defensoria em busca de uma forma de liberá-lo, continua preocupada, se prevenindo e tentando blindar o filho das oportunidades que o crime oferece. Parece uma missão sem fim. E é. “Ele colocou a tornozeleira. Está mais calmo, vendo que o negócio não tá pra brincadeira, muita gente morrendo. Está indo pra igreja comigo… estou fazendo a minha parte”, diz. João está em casa há cerca de um mês. Vai pela rua, volta, sai novamente. E assim, sem muita perspectiva, segue.
 

Algumas cicatrizes a mãe não conseguiu evitar. A violência policial que ela também sofreu - após a última apreensão, policiais iam à casa dela rotineiramente em busca de armas - deixou sequelas psicológicas em João. O que demanda ainda mais da mãe, que não consegue sentir o filho, saber o que ele sente, o que realmente quer da vida. “Ele apanhou muito, pisaram muito na cabeça dele, na minha frente, procurando por mais armas na minha casa. Internado, apanhou ainda mais. Meu filho é doente da cabeça”. João foi liberado, a mãe ansiosa com o futuro o recebeu, a namorada também. No caminho para casa, Ana ia sozinha andando na frente, sem abraço, sem companhia, sem segurar na mão do filho. 

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