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Facções. Agir enquanto há medo?

01:30 | 07/03/2018

Moradora de uma dos bairros mais vulneráveis de Fortaleza, Antônia assume que não conseguiu criar os quatro filhos. Dois tiveram outras referências familiares. Mas que, mesmo assim, nunca aceitou que eles se envolvessem com o crime. “O meu mais velho, quando tinha 14 anos e peguei ele roubando, eu mesma entreguei ele na DCA (Delegacia da Criança e do Adolescente), porque tinha medo que ele continuasse fazendo essas coisas erradas”, lembra. Conforme ela, depois da ameaça de ficar internado, ele teve medo e “não continuou nessa vida”.

“Se muitas mães fingissem que vão entregar o filho na DCA enquanto é pequeno, dava jeito, porque eles teriam medo. Depois que perdem esse medo, aí é mais difícil”, avalia. Hoje, aos 23 anos, o filho de Antônia não rouba, garante. Faz uso de droga e mora em outro bairro. Ele não está envolvido na criminalidade. Mas o que isso significa de verdade? De acordo com a mãe, já se vai um ano desde que ela viu o filho pela última vez. Ele não se tornou traficante ou avião, graças à mãe. Mas não deixa de ter a vida conduzida pelo que está à margem da lei.  

“Depois que inventaram esse negócio aí que a gente não pode ir de um lugar para outro… tenho raiva porque meu filho sempre vinha e agora não pode mais. 

E eu como mãe não posso fazer nada, são eles que mandam”, ressalta Antônia, referindo-se ao poder e a briga das facções criminosas. A mulher de 46 anos diz que se tivesse os recursos que tem hoje, jamais teria se distanciado de qualquer um dos filhos. Considera a igreja um bom caminho para que as famílias se encontrem em meio à pobreza e a criminalidade. “É uma forma de ficar fora (das facções). Do jeito que está não dá para a gente proteger nossos filhos e nem eles nos protegerem”. (Sara Oliveira)

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