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Droga, tiro e roubo. "Mataram o filho de alguém"

01:30 | 07/03/2018

Conversar, saber onde está, com quem anda, se chegar com qualquer objeto, já perguntar onde conseguiu. “Eu ia lá comprovar se o que ele estava falando era verdade. Sempre fiz isso. E ficava mostrando os exemplos, familiares, amigos, vizinhos…. mostrando o que acontecia com quem se metia com o que não presta”, conta Maria. Desde que nasceu, há 56 anos, ela convive com droga, tiro, roubo. Os dois filhos também. O pai dos meninos, ela conta, “era errado, pegava o que era alheio e usava droga”. Ele foi assassinado e ela precisou criar sozinha os dois, que na época tinham cinco e seis anos.

A grande dificuldade na missão de livrar as crias do perigo é não ter com quem deixá-los para ir trabalhar. “Meus filhos ficavam sozinhos, eles e Deus. 

E eu pedia para alguém dar uma olhada. Você cria um filho só, num lugar como esse aqui, ilhado por o que não presta. É difícil. E mais difícil é ver os coleguinhas deles, que foram criados com eles, estudavam juntos, morrendo. Meninos que eu segurei no colo”, descreve Maria. Ela continua a detalhar o que vive na periferia: quando menos se espera, vários tiros são dados. Cada um corre para sua casa e, minutos depois, o silêncio. Quando o clima fica mais calmo, sempre se ouve que “mataram o filho de…”  

O filho de Maria já usou cocaína. Conforme ela, para conseguir trabalhar à noite carregando peso. Depois de uma overdose, do choro desesperado da mãe, do medo de deixar mulher e filhos, ele parou. “Eu agradeço a Deus por isso todos os dias. Até porque ele teve muitas oportunidades. Esses manda-chuvas chamam as crianças para fazer de avião por R$ 5, R$ 10. Qualquer criança carente que mora na favela e passa necessidade vai. Por uma bermuda, por um tênis de marca. Um prato de comida ninguém oferece, mas chance de ir pro caminho errado é de monte”, desabafa.  

A revolta de Maria, que brada como se estivesse frente a frente com o político que não a enxerga, não é só por ela. Mas pelas tantas amigas que ela já consolou. Mulheres que lutaram, tentaram e não conseguiram evitar que os filhos fizessem parte da marginalidade, da troca de tiros, do uso de drogas, do tráfico. “Parece que o crime tem mais força do que uma mãe. E olhe que uma mãe é igual pedra, você pode morrer de bater, mas ela continua ali”, compara. O futuro dos netos, Maria já não vê com beleza. Diz que apenas espera Deus agir na vida deles. 

* Os nomes usados nesses depoimentos são fictícios para proteger a identidade das famílias. As histórias são reais.

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