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Com chuvas 61% abaixo da média, Pereiro vive racionamento

Sobre a Chapada do Apodi, Pereiro é mais perto das nuvens, mas elas não têm sido de boas chuvas. O açude local esvaziou. Os carros-pipa do Exército estão suspensos por 60 dias

01:30 | 19/03/2018
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Da vista do mirante do Cristo, o ponto mais elevado de Pereiro (a 328 km de Fortaleza), a paisagem é divinal e desesperadora. Um céu de azul intenso com pontas de nuvens espalhadas, ao lado do aglomerado da zona urbana e de um grande vale verde. Não são a descrição de uma fartura. A beleza é aflitiva. As nebulosas estão sem água, as casas estão com as torneiras secas e o esverdeado é ilusório. A cena é a confirmação do colapso do açude Adauto Bezerra, em outros tempos o principal provedor para cerca de 16 mil moradores. Não há mais o espelho de 4,7 milhões de m³ de água.


Pereiro desidratou-se nos seis anos de estiagem no Ceará, contados entre 2012 e 2017. Quase completamente. Foi sobrevivendo de carros-pipa e poços profundos desde que o açude se exauriu de vez três anos atrás. Na divisa com o Rio Grande do Norte e mais perto das nuvens – a cidade é no alto da Chapada do Apodi, 580 metros acima do nível do mar -, o que empoça de alguma precipitação logo evapora. Também não tem chovido o mínimo necessário em 2018.

[SAIBAMAIS]

O acumulado de janeiro até a última sexta-feira, dia 16, é de 366,8 milímetros. A média esperada era 942,9 milímetros (-61,1%). Foram chuvas em dias espaçados e o que poderia ser acumulado infiltrou no terreno seco do fundo do açude. Não há nenhuma água aparente dentro do reservatório. Tudo está ocupado por plantações. Há animais pastando e até um campinho de futebol, de areia seca como a do meio da caatinga.


“Nas nossas contas, são três anos realmente secos do açude”, descreve o chefe de gabinete da Prefeitura, Luciano Martins Santos. Na lista de municípios em situação hídrica mais crítica no Ceará, Pereiro está lá, ao lado de outras 12 cidades. “Abastecimento precário através de oito poços embora tenhamos perfurado 30”, diz trecho do relatório “Situação de Abastecimento das Sedes Municipais”, organizado pelos gestores hídricos do Ceará, sobre o quadro colapsado de Pereiro.

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O Exército, que controla a oferta de água por caminhões-pipa, decidiu em fevereiro que o serviço local seria suspenso pelos próximos 60 dias. A decisão considerou que os donos de imóveis poderiam se aproveitar da chuva acumulada nas cisternas de placas e nos recipientes caseiros. Mas a quadra chuvosa não se dá dentro do necessitado. Março, tido como o mês mais molhado do período, não está sendo.


Os reservatórios pequenos da zona rural tiveram recarga perto da metade, o suficiente para matar a sede de rebanhos domésticos. A preocupação da Prefeitura, segundo Luciano Martins, é a zona urbana. “Estamos com racionamento. Água uma vez por semana, mas o abastecimento dura cerca de meia hora”.


O mais perto como medida definitiva para o socorro de Pereiro, que seria a obra de uma adutora de 28 quilômetros para trazer água do rio Jaguaribe, não está acontecendo. “Quem passar pela CE-138, que liga a BR-116 à cidade vê a obra do Governo Federal abandonada. Nossa população anseia muito que essa adutora seja concluída”. O chefe de gabinete informa que há negociações para viabilizar a volta dos pipas antes do tempo total de suspensão.


Antes do “inverno”, o município fez a distribuição das 5,4 toneladas de sementes de milho, feijão e sorgo repassadas pelo Estado. Chuvas intervaladas, como as de Pereiro, acabam atraindo a presença de lagartas. Quando o sol é forte que a chuva nessa época, a larva destrói a folhagem dos pés de milho que tentam ganhar altura. Estragam a planta.


“Nossos agricultores esperam mesmo ser abençoados com muita chuva. Já tem muita gente plantando. Que nossas lavouras sejam produtivas, mas que nossos reservatórios peguem um pouco de água. Vamos esperar que o homem e o nosso santo São José nos abençoe”, roga Luciano Martins à sua cidade.

Cláudio Ribeiro



O VERDE É UM AÇUDE SECO

Plantado de milho e feijão, o vale verde deveria ser o espelho d’água do açude Adauto Bezerra, em Pereiro

 

POÇOS E PRAGA

Sem chover e sem açude, Pereiro se salva com poços e carros-pipa. A chuva aparece, o pé de milho cresce. A chuva some, a lagarta chega e come.

 

GABRIELLE ZARANZA

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