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Avó-mãe. "Amor de mãe é insubstituível"

01:30 | 07/03/2018

“Eu podia dar o maior amor do mundo a ele, mas ele queria o amor da mãe. É a força do cordão umbilical, minha filha. Amor de mãe é insubstituível”. Dona Joana sabe que poderia tentar todas as estratégias do mundo para que o neto Davi não se tornasse um adolescente em conflito com a lei. Mas se ele não tivesse o que mais queria, o afago sincero da mãe, nada adiantaria. Assim foi. Davi se tornou estatística de jovens assassinados em novembro, aos 17 anos. A primeira das nove vezes que cumpriu uma medida socioeducativa foi aos 13 anos.

A obsessão em possuir uma moto e levar a garota na garupa, de acordo com Joana, o ajudou a encontrar o mundo do crime. Vendendo drogas, cobrando usuários, ele conseguia pilotar. Apesar do envolvimento, sempre houve respeito à avó-mãe, amor e carinho. Mas a bênção materna, pedida dentro de um centro socioeducativo, foi negada. “Tudo o que eu pedia a ela (mãe biológica) era para ajudar o filho. Porque eu não chorei e não choro um sentimento de culpa, mas de perda. Eu enfrentei chuva, sol, discriminação, críticas, mas nunca deixei meu filho. E ela abandonou”, conta, despedaçada, com a certeza de que se Davi tivesse sido amado pelo tal cordão umbilical, estivesse hoje aqui.  

O voz é intensa, cheia de dor e medo em ser encontrada pela facção da qual Davi fez parte. Dona Joana é daquelas mulheres que vivem pelo amor, que faria - e fez - qualquer coisa para proteger o filho-neto. Ela perdeu a luta travada para fazê-lo entender que a vida honesta é a melhor. Venceu com os cinco filhos e outros 17 netos. “Para uma mãe, esse sentimento de perda é lutar, não ter oportunidades para os filho da gente, porque moramos na periferia, na pobreza. Pobre não tem direito a nada, só sofrer”, afirma.  

As lembranças são de um menino que poderia ter sido quem quisesse, mesmo com as consequências da bipolaridade, descoberta e controlada desde os quatro anos. “Era difícil, porque ele via coisas. Falava uma coisa e fazia outra. Em todos os centros eu levava os papéis de receita para mostrar”, lembra. Para Joana, prevenir que Davi se envolvesse ainda mais no crime significava continuar internado. Lá ela conseguia abraçá-lo, beijá-lo, ajudá-lo, orientá-lo. “Depois que ele saiu, foi para o bairro da facção e eu passei mais de dois meses sem ver. Prenderam ele lá, como eu podia ajudar meu filho sem nem poder tocar nele?!”.

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