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Facção estaria por trás do acordo de paz selado em 2016

| LÓGICA EMPRESARIAL |

01:30 | 22/02/2018

O ingresso na sangrenta guerra pelo domínio de territórios no Ceará não interessaria ao PCC, facção alçada ao status de cartel, topo da classificação das organizações criminosas. Segundo fontes da segurança pública ouvidas pelo O POVO, por conta de seu perfil empresarial, a “máfia” paulista sempre busca o lucro, o que poderia ser prejudicado pelos embates que ocorrem no Estado.
[SAIBAMAIS] 

E foi justamente por conta dessa visão “mercadológica” que faccionários do PCC teriam encabeçado articulações que culminaram na pacificação entre organizações criminosas ocorrida em 2016. Acerto que teria sido comandado por Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, preso em Fortaleza pela Polícia Federal (PF), em março do mesmo ano. Irmão do líder do PCC, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, ele estava estabelecido no Ceará como empresário. Naquele ano, os homicídios diminuíram 15,2%, maior redução dos últimos 18 anos no Estado.
 

“Sempre que você lembrar do PCC, pense em uma empresa multinacional. O PCC não quer perder drogas, armamento, pessoal. E sempre que as coisas acalmam, em algum lugar do País, tenha certeza de que o PCC tomou a frente e tem participação. Eles são os caras que sentam para colocar ordem na casa. Seus membros, no Ceará, já passaram dos 30 anos, já puxaram cadeia. São bem mais experientes”, detalha uma das fontes ouvidas pelo O POVO.
 

Outra pessoa que atua diretamente na investigação das facções afirma que líderes do PCC já chegaram “sentar com a cúpula da Segurança em muitos Estados para negociar um ‘cessar fogo’”. No Ceará, porém, um encontro do tipo não chegou a ocorrer. “Aqui, eles não negociaram, mas fizeram exigências. E, para evitar mortes, o Estado cedeu. Teve a distribuição de presos por penitenciária, por exemplo. Mas eles têm esse perfil de negociar”, completa.
 

Atualmente, além do PCC, um arrefecimento na guerra também interessaria à Família do Norte (FDN), que rivaliza com a facção paulista em âmbito nacional e local, mas que também atua com a lógica empresarial. “Nem o PCC nem a FDN queriam esse embate. Eles queriam outra coisa, a negociação. Não queriam a Polícia atrapalhando a ação”, revela. Ambas, contudo, continuam lucrando com a guerra travada pela Guardiões do Estado (GDE) e o Comando Vermelho (CV).
 

“Isso acaba não afetando o PCC porque quase toda a droga da GDE passa por eles. O PCC ganha de todo jeito. E, embora tenham um elevado poder de fogo, eles só vão para o embate quando não têm mais jeito. Seria um desgaste de pessoal e financeiro para o PCC entrar nessa guerra. A GDE é considerada o irmão mais novo e problemático deles. E como a GDE não têm muitos contatos, até porque a logística da facção não foi firmada, o PCC lucra”, afirma a fonte.
 

A lógica é a mesma para a FDN, que também se expandiu de maneira estruturada para o Ceará. “A FDN tem grandes fornecedores, até por ser do Norte, o que facilita por conta da proximidade com os países vizinhos, que são os produtores de drogas. O CV é maior em âmbito nacional, mas veio de maneira desorganizada ao Ceará. O CV nunca teve no Ceará as características que tem no Rio”, esclarece. 


Outra fonte destaca que a FDN, por conta da concorrência com o PCC em âmbito nacional, se aproximou do CV no Ceará. Os conflitos entre os grupos, entretanto, não devem sair do Estado. “Não é só porque a GDE é local, mas esses embates sempre se mantém pontuais e locais. E assim como não veio pra cá a guerra entre PCC e FDN, que está acontecendo em Manaus, o confronto de CV e GDE não sairá daqui”, conclui. 

 

(TP)

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