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A Eleição nas mãos de quem vota branco, nulo ou está indeciso
Reportagem

A Eleição nas mãos de quem vota branco, nulo ou está indeciso

| DATAFOLHA | Elevado percentual de eleitores sem candidato expõe a decepção com a política e a descrença na possibilidade de mudança no País
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Descrédito dos políticos, falta de participação, nomes que não inspiram confiança, decepções com partidos e candidatos. Para quem já decidiu votar nulo ou branco nas eleições presidenciais 2018, a expectativa de que o Brasil melhore é pequena. Entre os indecisos, a suspeita prevalece. Francisco, Daniele, Mauro, Valéria.... trabalhadores, conscientes, sem muita perspectiva de mudança. Eles poderão decidir os rumos da corrida eleitoral.
 

Pesquisa divulgada nesta semana expõe um cenário inédito. Pela primeira vez na história do Datafolha, a intenção de votos nulos ou brancos pelos eleitores chegou ao patamar de 32%. O número aparece oscilando com 24% em quatro cenários de eleições sem o ex-presidente Lula. Quando o petista é considerado entre as opções da urna, as anulações variam entre 14% e 19%. Lula foi condenado em segunda instância, no último dia 24, a 12 anos e um mês de prisão por lavagem de dinheiro e corrupção. Poderá estar inelegível em outubro.
 

De acordo com os dados, a maioria dos votos brancos ou nulos, quando da ausência de Lula na disputa, tem um mesmo perfil. Nordestinos, com renda até dois salários mínimos, nível fundamental de escolaridade, mulheres.
 

“Ainda é muito cedo. As pessoas não têm opinião estabelecida. Para a maioria, que trabalha, cuida dos filhos e da casa, política não é relevante”, justifica o professor de Ciência Política do Ibmec, Adriano Gianturco. Para ele, o desinteresse pela política é uma tendência mundial e reflete uma situação social onde há mais ocupações diárias do que preocupações políticas. “Mas no Brasil a corrida eleitoral também é muito personalizada, por isso historicamente a abstenção nem é tão alta”, pondera.
 

O coordenador do curso de administração, também do Ibmec, Eduardo Coutinho, destaca ainda que, se o voto não fosse obrigatório, a quantidade de nulos e brancos seria ainda maior. “Sempre haverá um número grande que vai para cumprir obrigação. Isso tende a aumentar com o tempo, à medida em que as pessoas entendem que os candidatos vão exercer um mandato em prol de uma agenda previamente estabelecida”, afirma. 

 

32
por cento
é o máximo de oscilação dos votos nulos e brancos quando Lula não é candidato
 

19
por cento
é o máximo de oscilação quando o petista é considerado entre as opções da urna   

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Karina Muhammad,30, vendedora. ”Se ele (Lula) não puder concorrer, voto nulo. Não compensa votar em alguém em quem você não confia”, afirma Karina. Para ela, ainda que o petista indique outro nome, o voto continuará sem um candidato. “Ele indicou a Dilma, eu votei, e olha aí no que deu”, resume.   

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Edward Júnior Chagas, 26, publicitário. No hall dos “sem candidato”, Edward afirma que a situação atual do Brasil dificulta ainda mais uma escolha “razoável”. Mesmo achando que quem vota nulo é considerado “alienado político”, ele assume o risco. “Vai depender muito, mas muito, do que aconteça daqui para frente. O povo não é mais besta, não se deixa levar tão facilmente”, afirma.   

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Valéria Gonçalves, 37, turismóloga. Votar branco ou nulo significa, para Valéria, não escolher e mesmo assim sofrer as consequências. A ideia é esperar a campanha eleitoral, mas a tendência é, pela primeira vez, não escolher nenhum rosto na urna eletrônica. “Isso é horrível, porque eu acho que precisamos participar. Mas se eu não vir evolução de nenhum candidato, voto nulo sim, pela primeira vez na vida”.   

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Abimael Almeida Moraes, 19, operador de telemarketing. Sem saída. É assim que Abimael diz se sentir. “Votar nulo não seria uma saída, mas podia ser um recado. De que o povo brasileiro não aceita qualquer coisa”, afirma. Erroneamente, ele acredita que se houver 51% de votos nulos, haveria uma nova eleição. Quando na verdade, a eleição seria decidida com os 49% de votos válidos.   

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Rogério Ferreira, 42, encarregado de produção. Desconfiança é o maior sentimento de Rogério, que votará nulo, caso Lula não seja candidato. “Também não voto em indicação, porque é colocar gente nova, que não conhecemos, e que terá por trás pessoas mais velhas, manipulando”, pondera. O mais importante em um político, para Rogério, é a iniciativa “corajosa de mudar as coisas de verdade”.   

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Francisco Elohim Carvalho, 36, motorista. ”Vai ser a segunda eleição que eu não voto, porque essa política não tem sentido”, argumenta o motorista que se prepara para ser empresário. A decepção com o homem que lhe inspirava confiança, Lula, foi o que o fez desistir das urnas. “Muitos políticos roubam nosso dinheiro. Mas ele roubou a confiança do povo. Vou tentar regularizar meu título só para abrir meu negócio”, diz.   

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Jam’s Willame, 34, estudante. O voto é em Lula. Ou é nulo. Sobre a decisão aumentar o risco de o próximo presidente não ser escolhido pela maioria dos brasileiros, ele fica reflexivo. “A negação faz parte da democracia também. Se alguém ruim for eleito, teremos de lidar com nossas escolhas, com a nossa negação. Teríamos que discutir e achar uma solução para o que tivemos coragem de fazer”, detalha ele, que estava com a namorada, a estudante Pâmela Souto, 21.   

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Guilherme Lacerda, 46, professor. Disposto a votar em algum candidato com “perfil mais social”, Guilherme não sabe se elegeria alguém além do Lula. “É ilusão achar que o voto nulo é um grito de revolta, isso é falácia. O sistema democrático é isso, precisa de uma representativa”, afirma, ao lado da mulher, Lilian Dionísio. O medo do voto nulo - até cogitado - é que algum “louco” assuma o poder.  

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Milena Lima, 19, auxiliar administrativo. A luta pelo direit o dos estudantes é preponderante para Milena quando o assunto é eleição. “Dependendo de quem o Lula indicasse, se ele não fosse candidato, eu votaria nulo ou não. Ele não indicaria quem não fosse parecido com ele”, pondera.   

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José Mauro de Sousa, 67, comerciante. Seu José nunca votou em Lula. Mas queria votar pela primeira vez este ano. Se não houver essa opção, o voto será nulo. “Nem nunca votei na Dilma também. Mas entendi o que o povo precisa e me decepcionei muito com o José Serra e o Aécio Neves, dois dos que votei antes”, lembra.  

 

 

O PERFIL DOS ELEITORES
 

A preferência por Lula (PT) fica acima da média entre os brasileiros que estudaram até o ensino fundamental (47%).

Inclui a parcela de pessoas com renda mensal familiar de até dois salários mínimos (47%).

A escolha pelo petista prevalece nas regiões Norte (46%) e, principalmente, Nordeste (60%).

A maior taxa de votos brancos e nulos em pesquisas de primeiro turno para presidência foi de 19%, em 2014.
Em eleição, a maior porcentagem de eleitores sem candidato durante primeiro turno foi na reeleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1998, com 19%.

Se somado à taxa de indecisos, o total dos eleitores que não escolhem um candidato chega a 36%.

Na disputa que inclui Lula (PT), Jair Bolsonaro (PSC), Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro (PDT), entre outros, os votos em branco ou nulo são de 19%.
Em um cenário sem Lula, com empate técnico entre Bolsonaro e Marina Silva (Rede), o total de pessoas que votariam branco ou nulo chega a 28%.   

Foram feitas 2.826 entrevistas em 174 municípios. A margem de erro é de dois pontos para mais ou menos. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral com número BR 05351/20018.

Dados foram coletados na última segunda, 29, e na terça-feira, 30   

 

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