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Vulnerabilidade. 73% das crianças e adolescentes mortos em Fortaleza estavam fora da sala de aula

01:30 | 30/01/2018

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A evasão escolar causada pelas facções criminosas agrava o risco de que crianças e adolescentes que vivem em assentamentos precários sejam vítimas de homicídio. É o que aponta levantamento feito pelo Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência (CCPHA). Em 2015, em Fortaleza, 387 pessoas, com idades entre 10 e 19 anos, foram mortas. Destas, 146 tiveram as famílias entrevistadas pelo Comitê. O questionário revelou que 73% das vítimas estavam fora da escola.


“Esse trabalho mostrou que é bem maior a vulnerabilidade ao homicídio do jovem que está afastado da escola. Isso agrava a condição dele de ‘matável’”, enfatiza o sociólogo e coordenador técnico do CCPHA, Thiago de Holanda. Ele destaca que, à época da pesquisa, a motivação mais recorrente para a evasão era o “desinteresse”. Hoje, porém, os relatos recebidos pelo comitê dão conta de abandono por “ameaça de facções”.
 

Segundo Holanda, para além da educação, as restrições de livre circulação nos bairros impactam ainda na saúde e cultura. “O Comitê tem recebido diversos relatos de crianças e adolescentes com restrição de acesso a serviços de saúde, como as jovens que deixam de fazer pré-natal porque não podem ir ao posto, em bairros como Bom Jardim e Jangurussu. Na Barra do Ceará, alguns não podem ir ao Cuca”, alerta.
 

Relator do CCPHA na Assembleia Legislativa, o deputado Renato Roseno (Psol) enfatiza que, em um cenário de violência, redes de busca ativa, municipal e estadual, devem ser reforçadas. Ele sugere a criação de equipes multidisciplinares treinadas, como parte de um processo institucional obrigatório, substituindo ou complementando iniciativas individuais de busca. Ressalta ainda que, em um contexto de violência, a ação deve ocorrer de maneira segura para profissionais e alunos.
 

“Precisamos saber por que esse jovem saiu e o que devemos fazer para que ele volte. E isso não pode ser responsabilidade individual dos professores. Sobre eles já recaem enormes responsabilidades. O professor também sofre com a violência e está adoecendo mentalmente. O sistema escolar precisa de equipes de supervisão e apoio que desenvolva essa busca, indo à família, à casa e à comunidade, para reintroduzir e acompanhar o adolescente que saiu”, defende. (TP)

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