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No bairro, portas trancadas

01:30 | 30/01/2018

As memórias de uma noite de terror ainda estão sólidas pelas calçadas e paredes nas ruas próximas ao local onde ocorreu a maior chacina do Ceará. Desde sábado, 27, o que fica é o medo, a dúvida e o ar ofegante de uma comunidade que ainda não se restabeleceu.
 

“Está vendo aquele buraco? É de um tiro que eu escapei”, mostrou uma moradora. Ela conta que, fosse mais tarde naquela madrugada, teriam morrido ainda mais pessoas. “Era começo de festa. Se fosse mais tarde, o estrago era maior. Minha perna treme só de lembrar.”
 

Na tarde de ontem, moradores do bairro ainda tentavam se recuperar das cenas. Numa casa vizinha ao clube onde houve a matança, os telhados estavam sendo reformados. Por ali as vítimas tinham buscado escapar da morte.
 

Nas esquinas, era possível ver pichações de nomes e apelidos de quatro das 14 vítimas da chacina: Netinho, Jumento, Mara e Marrom. Todos conhecidos pela vizinhança.
 

No restante das ruas, portas fechadas, comércios atendendo através de grades. Única escola próxima, o Centro de Educação Infantil Guadalupe não funcionou porque os pais não levaram as crianças às aulas.
 

Comunidade surgida há cerca de dez anos após uma ocupação, as Cajazeiras conta com serviços precários de educação e saúde. O atendimento médico mais próximo é um posto no Barroso. “Até agora, não recebemos nenhum tipo de apoio”, fala um morador. Segundo ele, foi feita cota para comprar caixão para vítimas.
 

Questionados sobre o possível motivo do crime, não especulam a causa. “A  gente se pergunta o motivo por que não vieram matando pessoas marcadas, saíram atirando para todo lado, para pegar em pessoas trabalhadoras”, disse um dos comerciantes.
 

O POVO tentou contato com a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) para buscar mais informações sobre o proprietário do Forró do Gago, conhecido como Francisco José, mas a solicitação não foi respondida.
 

Também foi buscado contato com a Secretaria Municipal da Segurança Cidadã, que informou que o titular da pasta esteve no local do crime, mas não deu mais detalhes sobre o trabalho.
 

Em nota, a Coordenadoria da Juventude de Fortaleza não citou nenhuma ação após a chacina. Por telefone, a Secretaria Municipal dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social chegou a dizer que estava havendo reunião para pensar ações, sem mais detalhes. (Eduarda Talicy)

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