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Banca O Paixão

O mais antigo dono de banca na Praça do Ferreira, Seu Paixão, segue pelas boas conversas

08/04/2019 02:04:35
 Seu Paixão, proprietário da banca mais antiga da Praça do Ferreira, no Centro
Seu Paixão, proprietário da banca mais antiga da Praça do Ferreira, no Centro (Foto: ALEX GOMES)

Uma banca com vitrine formada por CDs de artistas como Cartola, Clara Nunes, Gonzaguinha e Noel Rosa. Acima da coleção de jornais e revistas, fotos antigas já amareladas. Um grupo de senhores de meia idade conversando animadamente na calçada. O ambiente é saudoso, e pudera: com 23 anos em exercício, Francisco Ferreira Paixão é o dono de banca mais antigo da Praça do Ferreira. O sentimento que transborda o sobrenome e se transforma em apelido também rege o dia a dia do aposentado.

Nascido em Baturité, Ceará, Seu Paixão chegou a Fortaleza com 15 anos, em outubro de 1963. O contato com o trabalho em banca de revistas e jornais começou no antigo Abrigo Central da Praça do Ferreira. Mesmo a demolição do empreendimento, em 1967, não impediu que Seu Paixão continuasse no ramo. Atuou na Praça até 1972, quando passou a trabalhar em uma empresa de produtos de beleza até 1996. Vendo que havia conseguido guardar um dinheirinho, era chegada a hora: Seu Paixão queria a própria banca.

Desde então a Praça do Ferreira funciona como se fosse a sala de estar da sua casa. As pessoas chegam o tempo todo. Categórico, Seu Paixão faz questão de ressaltar: "estou aqui e não pretendo sair daqui". Durante o expediente, os amigos formados ao longo dos anos se juntam em frente à banca para jogar conversa fora. A água e o café servidos são de praxe. Há quem também leve alguns biscoitos e até bolo para acompanhar o rotineiro lanche da tarde. "Eu já estou aposentado, minha esposa também, meus filhos estão formados, eu vou ficar em casa por que? Aí eu prefiro ficar aqui. Eu gosto daqui aqui, é um ambiente bom, eu tenho muitos amigos, daqui a pouco chega médico, tem professor, tem oficiais do exército, aqui tem uma clientela muito boa", comenta, orgulhoso.

Antigamente, a gente vendia 300 jornais por dia, revistas. "Hoje em dia, as bancas sobrevivem de bombom, recarga de celular, cigarro… Como eu não quero mais ter trabalho, eu deixei de vender cigarro porque atraía muito ladrão, a banca já foi assaltada umas seis vezes. E recarga de celular eu não quero porque eu não vejo futuro. Prefiro bater papo com os amigos do que trabalhar de graça para as operadoras", desabafa. Por isso, o que o Seu Paixão mais vende são revistas de palavras-cruzadas e costura, mas o que ele mais ganha são as amizades. "Amizade não têm dinheiro que pague", garante.

Completando 71 anos dia 10 deste mês - "sem cabelo branco, e não é pintado não!", - Seu Paixão tem como prioridade ter paz. A jornada, antigamente de 8h às 00h, foi reduzida para 9h às 14h, com direito a atraso em um dia gostoso de chuva. O futuro do estabelecimento talvez esteja nas mãos de um sobrinho, Paulinho, motorista de ônibus que já apresentou interesse em tocar o negócio. Mas, até lá, Seu Paixão ainda têm muita conversa para jogar fora.

Letícia do Vale / ESPECIAL PARA O POVO