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Assinatura na pele

Tatuador cearense Jack Anderson faz do corpo dos clientes folha de papel da sua arte

01:30 | 08/10/2018

A cultura do povos, antigos ou novos, serve de inspiração para o trabalho do tatuador Jack Anderson Carneiro Parente, 39, sócio-proprietário do Metal Dog. Aos três anos, ele já traçava os primeiros riscos em papel, mas só após os 20 anos desenvolveu a técnica de desenho na pele. "Uma das coisas que eu sabia na minha vida era que eu ia viver de arte, ia viver de desenho, de alguma coisa que eu pudesse produzir graficamente".

Ele nunca fez cursos de desenho na adolescência, também por questões financeiras, então precisou ser autodidata. Por acaso, recebeu o convite para compor equipe de um estúdio de tatuagens, enquanto cursava Publicidade e Propaganda na Unifor. "Na época que eu comecei, tudo era muito informal, ainda é em Fortaleza, não existem propriamente cursos de formação (para tatuadores). O único curso que eu sei é em São Paulo, então quando o estúdio tinha necessidade, ele adotava um aprendiz e investia nele", explica.

Jack Anderson inaugurou estúdio próprio em 2015. O preço médio da sessão é R$ 600 Vitória Aderaldo/Especial para O POVO
Jack Anderson inaugurou estúdio próprio em 2015. O preço médio da sessão é R$ 600 Vitória Aderaldo/Especial para O POVO

Tatuar não exige apenas criatividade e habilidade com a mão, o artista precisa higienizar instrumentos e local de trabalho para evitar riscos à própria saúde e do cliente. "É um ponto que eu sempre levo em consideração: o cliente se tatua uma ou duas vezes por mês, com uma frequência muito mais baixa do que a gente. A gente tatua gente quem não conhece, todo dia, o dia todo, é muito mais fácil a gente pegar alguma doença se tivermos um acidente", diz ele.

O material é todo esterilizado ou descartável, e a superfície do corpo passa por limpeza antes da aplicação do stencil e depois da finalização da arte. Uma das tatuagens feitas por Jack, com o tema "São Jorge contra o dragão" (em perna), alcançou a marca de 19 sessões de três horas de duração. "Foi toda feita no linework e pontilhismo, demorou muito para eu fazer todo o degradê cirúrgico de pontos e conseguir esse efeito de céu e nuvens. A parte debaixo tinha o dragão com as carcaças dos guerreiros mortos, foi freehand". Em uma outra, nas costas de um cliente, ele chegou a trabalhar das 22h às 8h da manhã seguinte.

Jack tatua colorido, mas se especializou em trabalhos pretos, nos estilos linework (linhas) e dotwork (pontos). "Eu desenvolvi dentro de um estilo que já existe o meu nicho, a minha maneira de me expressar. Isso trouxe, de certa forma, uma personalidade para o meu trabalho, e as pessoas buscam isso hoje em dia", pondera. Ele faz, no mínimo, dez sessões por semana.

Critério e qualidade. Se não for bom, Jack descarta e pode até desmarcar um horário para alcançar o padrão. “Eu enxergo a tatuagem como um ritual, nesse ritual você tem que respeitar todos os processos, você tem que respeitar a pessoa. Tratar as pessoas como elas esperam e merecem ser tratadas, porque você gostaria de ser tratado assim. Eu lido com pessoas, a tatuagem é um detalhe”, compartilha.

Arte e Estratégia 

Como é administrar um estúdio de tatuagem?

O que acontece na maioria das vezes é que os tatuadores se aliam a outros tatuadores para abrir um negócio. Isso, para mim, não é uma fórmula muito promissora. Eu tive segurança de abrir o meu negócio porque eu estava lidando com um administrador. Eu faço a gestão da área, do estoque, várias coisas. Trabalho o merchandising da empresa, por trás disso tudo, o meu sócio (Érico Praça) é quem administra, cuida do financeiro, faz os melhores contatos.

Quais são as suas referências?

É muita coisa, leio muito, tenho uma paixão muito grande por história. Eu sou um cara aficcionado por culturas diferentes, ciberculturas até antigas civilizações. Cultura nórdica, grega, suméria, assíria, babilônica, tribais, como a polinésia, cultura soviética. O que podem produzir, enquanto funcional, enquanto religião, características de um povo, artísticas, seja na dança, na música, na escultura, isso me fascina.

Algum autor é leitura recorrente para você estimular sua imaginação?

Sou um artista que trabalha muito com a temática do horror, se você for olhar, muitos dos meus trabalhos autorais têm um lado mais sombrio, eu gosto muito de terror e de literatura de terror. Os dois caras que geralmente eu revisito: H. P. Lovecraft (Howard Phillips Lovecraft), eu amo o trabalho desse cara, sempre estou lendo, encontro coisas; e o outro é o Stephen King, um cara maravilhoso em todos os seus aspectos. Eu flerto com Edgar Allan Poe, acho um cara sensacional.

Recomenda essa profissão?

Se for o que a pessoa está buscando, eu recomendo, sim. Agora, é um caminho muito árduo, eu lembro que enquanto eu estava aprendendo a tatuar, muitos aprendizes com certeza dizem isso, você está no meio de um trabalho que você fica perdidaço: Cara, o que é que eu estou fazendo aqui? Você tem que estar aberto a levar tapa na cara, ser tatuador é, com certeza, trilhar um caminho muito árduo. Você consegue comprar hoje em dia, muito fácil, tudo que precisa para começar a tatuar, ser um tatuador profissional é outra coisa. Acho maravilhoso, é algo em que eu me encontrei, sou realizado fazendo o que eu faço, mas acho que depende de cada um. Como toda busca por alguma coisa, um sentido para sua vida, necessita entrega total. Você tem que estar naquilo ali de corpo e mente, de maneira integral. 

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Confira os vídeos do Perfil Profissional em: https://bit.ly/2Fq8ZYK  

AMANDA ARAúJO