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A importância da pausa

Embora as vezes cause culpa nos praticantes, será que é possível tirar proveito da procrastinação?

01:30 | 21/05/2018

 

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Em período de produção da monografia, a estudante Amanda Fontenele, 22, conta que há momentos em que as ideias não fluem, é quando ela decide parar e deixar para depois. “Tem dias que eu não consigo escrever bem, que mesmo que eu planeje, fique em frente ao computador, não sai nada”, conta. 

 

Ela considera que os períodos longe das tarefas obrigatórias são essenciais  para a produção do trabalho, embora nem sempre tenha pensado assim. “Antes, eu achava que dia produtivo era sinônimo de passar o dia escrevendo, fazer três páginas em um dia só. Mas não é bem assim, tem dias que eu consigo escrever dois parágrafos, e o que eu achava pouco, ficava triste, hoje em dia eu acho ótimo”, diz. 


Além do trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, a estudante ainda administra duas atividades na rotina. Ela comanda o instagram literário Asas de Tinta e é uma das podcasters do programa Molho Shoujo. Ela conta precisar de um tempo inclusive dos hobbies, que hoje também considera como responsabilidade, já que diz precisar ter compromisso com os seguidores e parceiros, como editoras e autores. “A gente precisa dar um tempo de tudo, até das coisas que gosta. E se tiver cansativo demais eu não produzo direito. Não fico me cobrando muito porque cria uma ansiedade e um nervosismo que eu não preciso”, analisa.

 

Mesmo pessoas que conseguem conciliar as atividades em procrastinação, é preciso ter cuidado para que o hábito não crie conflitos internos  

Segundo o psicólogo clínico Felipe de Souza, há indivíduos com um tipo de personalidade em que deixar tudo para depois é ok, não vai haver um sofrimento. “Existem pessoas que tem uma personalidade mais criativa e lúdica e procrastinar pode sim vir a ser uma dificuldade e um problema, mas também pode ser um estilo de vida. A pessoa gosta de procrastinar e isso dá a ela até liberdade, de tempo de criação, por exemplo”, explica.
 

No caso de Amanda, ela conta fazer atividades que “dão espaço para o inconsciente respirar” durante o período longe das tarefas obrigatórias. “Eu faço coisas que não tem a menor cara de responsabilidade. Eu vou cozinhar, fazer maquiagem, sair de casa, assistir a um filme, desenhar... Coisas que eu percebo que não preciso impor muito o pensamento, deixo o inconsciente levar”, diz.
 

Felipe pondera que, mesmo com pessoas que conseguem conciliar as atividades em procrastinação, é preciso ter cuidado para que o hábito não crie conflitos internos e não atrapalhe outras pessoas que dependem do trabalho dela. “Às vezes você tem aspectos positivos sim, mas é necessário cuidar da autocobrança, quando a pessoa fica se cobrando muito por não ter feito algo porque estava fazendo outra coisa. Às vezes o malefício de procrastinar vai ser muito maior do que o benefício”, comenta.
 

A psicóloga especialista em análise do comportamento Luciana Gurjão defende que é difícil achar uma vantagem na procrastinação. O que na verdade ocorre é um “alívio imediato” em não fazer aquela atividade. 

 

“Quando a pessoa precisar fazer aquilo, o nível de ansiedade dela será bem maior. E ela deixa de cumprir um prazo importante, perde uma oportunidade e perde até dinheiro. Pode até pagar multa se atrasar um contrato”, destaca.
 

Para ela, o importante é a pausa nas atividades, que não deve ser confundida com procrastinar. “Caso a pessoa não consiga se concentrar, é importante ficar 1 hora ou até 1 ou 2 dias de descanso e retomar as atividades para repor as energias. Tem de equilibrar, não só focar naquilo que ela tem de fazer porque chega a um nível de estresse alto”, explica Luciana. 

 

PARA AJUDAR
 

Administre as responsabilidades
 

LISTA DE TAREFAS

A dica é fazer uma lista de 10 itens. Mesmo que não seja feita a número 1, prioridade, por qualquer que seja o motivo, pode ainda assim começar a fazer as outras 9. “Embora a pessoa não esteja fazendo a mais importante, ela está fazendo outras muito importantes ou que eventualmente serão importantes”, diz Felipe. 

TÉCNICA DA FORMIGA

“A formiga é um ser presente em todos os lugares, mas geralmente é ignorada. Podemos utilizar essa mesma lógica para caracterizar uma determinada atividade”, explica Christian. Por exemplo: Para que seu plano de ler todo dia se torne “insignificante”, comece a ler duas páginas por dia. Assim, você tem o momento da leitura e depois fica mais fácil prolongar até o tempo ideal.


TÉCNICA DOS CINCO
 

Ao pensar naquela tarefa, você deve largar o que estiver fazendo e contar de cinco até um, respirar profundamente a cada número e mentalizar o que precisa fazer. Ao final da contagem, você inicia o trabalho. “Isso é uma forma de te colocar em um estado de concentração e fornecer a energia necessária para que você entre em ação”, diz Christian.

MÉTODO POMODORO

Estipule um tempo de descanso como parte da suas atividades. Depois de 25 minutos fazendo uma tarefa, por exemplo, dê uma pausa de 5 minutos. “Nesse intervalo, converse com alguém, distraia-se, coma algo, beba água…”, sugere Luciana. A técnica foi criada em 1980 pelo italiano Francesco Cirillo. 

POR PARTES

Trabalhe com pequenas metas. “Divida, no mês de maio faz uma parte, em junho faz outra parte, até finalizar todo o trabalho”, explica Luciana. Isso ajuda quando se pensa que o prazo é muito longo e tem muita coisa a ser feita, em que se cria uma aversão àquilo.  

COMPORTAMENTO

O que motiva o hábito de deixar para depois? 

Especialistas apontam que essa prática surge de diferentes causas e que é importante conhecê-las para combater ou pelo menos lidar da maneira correta. “Muitas vezes, isso acontece porque, ao terem acesso a diferentes coisas ao mesmo tempo, as pessoas optam por realizar aquilo que dá um prazer imediato em vez de fazer algo que ofereça um retorno a longo prazo”, afirma, por e-mail, Christian Barbosa, especialista em administração de tempo e produtividade e CEO da Triad PS. 

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“Pode ser uma aversão, um desgosto em fazer aquilo. Por exemplo, não quero estudar para prova de matemática e fico adiando até que fique muito perto e não ter outro jeito. Pode ser cansaço, preguiça, falta de vontade ou de energia”, explica Felipe. Segundo ele, todo mundo tem uma tendência à inércia, ao conforto e a fazer o que é agradável. “Mas algumas atividades são desagradáveis e existe um ponto que não tem como não fazer”, diz.   

 

Procrastinação ou cansaço?
 

A psicóloga Luciana Gurjão explica que é comum confundir procrastinação quando na verdade a pessoa está tentando fazer uma atividade, mas não consegue porque está extremamente cansada. “Ela pensa ‘Poxa não estou conseguindo porque não quero, porque não sou competente, não estou me esforçando o suficiente’. E ela se sente mal. Às vezes, ela não consegue fazer algo porque está num nível de estresse muito grande ou com um problema mental, estresse”, explica. Segundo ela, a saída é procurar um acompanhamento com psicólogos e psiquiatras. 

LUAN CARVALHO

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