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falácia na mate mática

O que nos faz acreditar que o ensino de matemática foi melhor ontem do que hoje?

Caro leitor, você já deve ter ouvido expressões do tipo: "no meu tempo, eu sabia fazer esses cálculos de cabeça"; "meu avô não errava uma conta na escola"; "hoje em dia, esses alunos não aprendem mais nada". Essas comparações são sempre feitas e causam certo espanto e perplexidade nos estudantes que ouvem tais afirmações. Inevitavelmente, muitas pessoas ficaram com a falsa ideia de que, com o passar dos tempos, a boa qualidade do ensino de Matemática regrediu, consideravelmente, de forma a impactar negativamente no nível de proficiência dos alunos em um ou mais de um dos quatro blocos de conteúdos de Matemática: grandezas e medidas; números e operações; espaço e forma; e tratamento da informação.

Podemos citar vários fatores que tornam tal comparação insidiosa. Na oportunidade, destacamos dois. Como primeiro exemplo, temos a universalização da Educação Básica no Brasil, a partir da Conferência da Educação para Todos que ocorreu em Jomtien no ano de 1990, com o objetivo de atender a Constituição Federal que, em seu art. 205, destaca: "A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". É indiscutível a importância da universalização do ensino para a população brasileira, contudo não podemos esquecer que, proporcionais, devem ser as ações de investimentos nas dimensões pedagógica, infraestrutura e capacitação de servidores, para que a boa qualidade do ensino seja mantida ou melhorada, o que não ocorreu.

O segundo fator que destacamos está relacionado ao material didático, utilizado pelas instituições de ensino. Professor Elon Lages Lima, pesquisador emérito do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada que, infelizmente, nos deixou em 2017, porém deu muitas contribuições para a Educação Matemática. Dentre elas, cito a análise de textos do Ensino Médio que realizava de forma a contribuir para o processo de escolha de livros didáticos, com a finalidade de utilizar num determinado grupo de professores de Matemática. Elon Lages Lima costumava afirmar que o nível médio de uma turma será, no máximo, o nível do material didático utilizado. Claro que não estamos esquecendo dos diversos elementos que estão presentes nos processos de ensino e aprendizagem de determinada geração, entretanto chamamos a sua atenção para a necessidade de uma boa escolha do material didático que será adotado.

Para termos uma noção mais precisa da abordagem utilizada no ensino de Matemática e na evolução do Currículo, salientamos um trecho do livro de Matemática do Prof. Carlos Galante da Editora do Brasil S.A. (1967), utilizado na segunda série Ginasial, equivalente ao 7º(sétimo) ano do Ensino Fundamental do atual sistema de educação brasileiro (ver ventilação ao lado).

Note que as competências e habilidades que o aluno deveria ter para repetir o processo exigido pelo tópico, em destaque no livro, são superficiais. Os textos utilizados, no atual modelo curricular brasileiro, trazem abordagens com maior grau de aprofundamento e não está preocupado com a "regra prática" de determinado processo, e sim com o conceito do conteúdo abordado e significado no cotidiano do aluno.

Portanto, ao mesmo tempo que devemos evitar comparações sem parametrizações, é imprescindível reconhecer a importância da Educação Matemática das décadas passadas, para o desenvolvimento do sistema de ensino de Matemática. Ratificamos a necessidade de, sempre, utilizarmos mais ferramentas capazes de contribuir para que a aprendizagem dos nossos estudantes em Matemática seja satisfatória no atual sistema de ensino brasileiro.


PROF. JOSÉ ALVES DE OLIVEIRA NETO

Licenciado em Matemática pelo IFCE e Mestre em Informática Educativa pela UECE. Diretor do Instituto Federal do Ceará (Campus de Tauá).

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