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Para ter acesso a juros mais baixos, tem que ter maior relação com o banco

O presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, em entrevista ao O POVO, ressaltou que pretende replicar modelo do BNB

01/07/2019 03:15:06
Pedro Guimarães, presidente da Caixa Econômica, participou de evento do Lide
Pedro Guimarães, presidente da Caixa Econômica, participou de evento do Lide (Foto: Fabio Lima/Fabio Lima)

"A Caixa Econômica Federal é o banco da padaria do Seu Joaquim". É assim que define o presidente da instituição financeira, Pedro Guimarães. O executivo mira na classe média para aumentar a carteira de clientes. Também planeja atrair com juros mais baixos os empresários do setor da construção civil que entregarem a fidelidade na hora de consumir outros produtos bancários. Vislumbra replicar e levar o modelo de microcrédito do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) para as regiões Norte, Centro-Oeste, Sul e Sudeste do País.

Nesse último final de semana, Guimarães esteve de passagem pela Capital para o Programa Caixa Mais Brasil, no qual viaja pelas cidades brasileiras para conversar com gestores públicos e levar vantagens de crédito temporária para a região. Durante os contados vinte minuto concedidos de entrevista, conversou com O POVO - quase sempre respondendo com perguntas retóricas -, sobre como pretende atrair novos correntistas e reposicionar o banco no mercado brasileiro.

O POVO - O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que estuda liberar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) de contas ativas e inativas para impulsionar economia. Como o senhor avalia essa possibilidade?

Pedro Guimarães - Mas ele anunciou essa medida?

OP - Anunciou que está avaliando.

PG - É, a Caixa, na verdade, ela é gestora do FGTS. Então, ela não faz parte dessa decisão. É uma decisão do ministro e a gente está amplamente capaz de fazer o pagamento. Fazer o pagamento a gente consegue, mas isso é uma decisão exclusiva do ministro.

OP - Na sua avaliação não teria impacto negativo para o Banco?

PG - A questão é que o que meu chefe determina...Eu avalio a gestão da Caixa Econômica Federal. Não vou entrar no que cabe ao ministro.

OP - O Banco planeja criar taxas diferentes para cada região do País, como propõe temporariamente o Programa Caixa Mais Brasil ?

PG - É muito importante porque cada região do Brasil tem uma renda diferente, uma realidade diferente, características diferentes. Algumas são mais voltadas para o Agronegócio, como o Centro-Oeste, que cresce muito. Outras são mais para benefícios sociais, como a região Amazônica, e tem característica de turismo, mas a característica assistencial é muito importante. No Nordeste, você tem indústrias de turismo, mas, na região perto do mar, mais para o interior também tem uma parte assistencialista muito grande, depende da presença do governo. Dependendo da área, a gente tem que ter produtos, não é só taxa. Produtos específicos e taxas específicas, tem uma parte do vale do São Francisco que está com a irrigação, começou Petrolina, Juazeiro, está com uma exportação muito grande de fruta em especial manga e uva. A gente abriu uma linha muito especial. Por isso que viajar o Brasil inteiro tem muito valor.

OP - Tem previsão de redução de juros dos serviços?

PG - Toda vez que eu viajo, a gente tem pelo menos um mês de redução de juros de 15% a 30% além do que a gente está negociando no Brasil. A gente tem até de um ano. São várias. Eles (a assessoria) devem ter dado para vocês, mas são 20 e 30 produtos diferentes, que você tem uma redução e, além disso, a gente está trabalhando, nesse momento, com reduções permanentes de juros em algumas áreas, que são as áreas de vantagens comparativas da Caixa. O crédito imobiliário, por exemplo, e outras que são importantes. O crédito especial...Em especial para o pessoal mais carente. Estamos fazendo uma reavaliação global da Caixa Econômica Federal.

OP - A Caixa vai apostar no microcrédito e concorrer com o BNB?

PG - Sim. Na verdade, a maior parte dos pagamentos do microcrédito vem pelas lotéricas. Então, as lotéricas já são algo muito importante dentro do microcrédito, do Crediamigo e parte do funding do banco do Nordeste vem também da Caixa Econômica Federal. Como hoje a Caixa tem uma operação de microcrédito incipiente, ela acaba financiando a expansão do próprio Crediamigo. A Caixa já faz parte indiretamente.

OP - Mas pretendem criar um modelo próprio?

PG - Ela vai, mas, dado o tamanho da Caixa Econômica Federal, a gente não pretende reinventar roda. A gente acha que o modelo que o Banco do Nordeste, o Crediamigo, que funciona há muito tempo, já é muito bom. O que a gente pretende fazer é replicar essa operação que funciona tão bem no Nordeste para região Norte, Centro-Oeste, Sul e Sudeste.

OP - A economia brasileira não tem boas perspectivas de crescimento e ainda há a incerteza da reforma da Previdência. Nesse contexto, a tomada de crédito está como esperado?

PG - A gente tem mais do que esperado a demanda pelo crédito imobiliário. Está melhor do que estava antes. Tanto que a gente retomou a liderança no crédito imobiliário com recursos da poupança, que há alguns anos a gente não tinha foco que temos agora, e é uma questão sempre de expectativa para os empresários. Por que a Previdência é importante? Porque ela é uma solução de longo prazo. Para o empresário tomar uma decisão de investimento de médio prazo ele tem que ter uma confiança de que a economia não vai explodir daqui há dois ou três anos. Então, a reforma da Previdência é uma questão muito mais de confiança de investimentos do que efetivamente uma solução de curto prazo. E a reforma da Previdência está segurando uma série de outras medidas que a equipe econômica tem, mas não quer colocar antes da reforma da Previdência para não tumultuar o ambiente, como o foco da reforma da previdência é muito importante. Existe uma série de outras reformas, que vão ajudar até mais no curto prazo, só que como a reforma é mais importante, se colocam outras reformas, que são menores, algumas até nem precisam do Congresso, mas você tira o foco daquilo que é mais importante e que é realmente transformacional.

OP - Como o Ceará está nesse cenário de financiamento da Caixa?

PG - O Ceará, pela sua relevância no Nordeste, tem um foco grande da Caixa Econômica. Tanto na parte de credito imobiliário, quanto de investimento em infraestrutura. A Caixa é o maior parceiro de todas as empresas de saneamento no Brasil. Tanto empresas privadas quanto as públicas. A gente financia todas as obras que você possa imaginar: de infraestrutura, da parte de saneamento em especial. Esse elemento, eu diria, que é o nosso foco principal. Tanto na parte de água quanto esgoto. Então, isso é algo que a gente leva a sério. Também na parte de energia renovável estamos entrando mais forte. Iluminação pública...Isso a gente faz diretamente pelas empresas ou indiretamente pelos governos estadual e municipal, que a gente tem uma linha que se chama Finisa e essa linha é focada para investimentos em geral. A Caixa tem 90% desse mercado no Brasil.

OP - A Caixa tem buscado ter taxas mais atrativas?

PG - A gente tem uma solidez do nosso balanço muito grande. A solidez se mede por índice chamado de índice de Basileia. O único banco grande que tem esse índice acima de 20%, e quanto maior, mais sólido é, é a Caixa Econômica. Por que isso é importante? Porque como a gente tem uma solidez muito grande e um resultado financeiro muito grande e a caixa é um banco social, a gente consegue devolver para sociedade de uma maneira muito clara. A gente lançou não só linhas mais baratas de financiamento, mas mais agressivas de negociação. Então em um mês a gente lançou uma renegociação para 3 milhões de pessoas que estavam com o crédito atrasado há mais de um ano e com 90% de desconto. Então mais de 200 mil pessoas já conseguiram ter essa negociação. Por que ela é tão importante? Porque essas pessoas que estavam com o nome sujo na praça, não tinham como pegar dinheiro de bancos e acabavam pegando de financeiras, a 15,20 e 22% ao mês. Quando ela faz essa renegociação, ela volta para pegar dinheiro a 2% ou 3% ao mês. Então, ou seja, não só a gente está reduzindo empréstimo para pessoas que estejam em condições de pagar, como nós estamos ajudando quem estava sem condição de pagar com grandes descontos.

A mesma coisa na casa própria. 600 mil pessoas estavam na beira de perder suas casas, lançamos uma grande linha de negociação, onde você precisava pagar apenas uma parcela atrasada e 60 mil famílias deixaram de perder sua casa por causa desse pagamento, e nós estamos negociando com mais 50 mil famílias .

OP - A concorrência procura alcançar a fatia da Caixa, aproveitando que o banco precisa de reforço de capital para fazer frente ao risco dos empréstimos. Como vocês têm trabalhado isso?

PG - Para grandes empresas, quero que eles levem tudo. Porque a Caixa não é o banco para financiar empresa que pode se financiar no mercado externo e os outros bancos. Então eu falo que a Caixa Econômica Federal ela é o banco da padaria do seu Joaquim. Ela não é o banco da Petrobras. Por isso tem que ter foco. O foco da Caixa é pequenas e médias empresas, infraestrutura, pessoas mais carentes, por isso o foco tão grande no consignado, no cartão de crédito consignado e no crédito imobiliário, tanto na baixa renda que nós somos agentes de políticas de estado, que é o Minha Casa, Minha Vida, mas não só do Minha Casa Minha Vida, ou seja, toda a operação de financiamento de crédito imobiliário continua igual. Mas, além disso, queremos financiar as pessoas de classe mais elevada. Então a caixa é o banco da pessoa carente, mas também da classe média.

OP - Como vocês têm atraído esse público classe média?

PG - A gente já reduziu e tomou a liderança. A gente não estava na liderança há três anos e, em dois meses, a gente retomou. Saímos de terceiro para primeiro lugar e nosso objetivo mais do que a liderança é oferecer um produto de crédito acessível, uma taxa e uma mudança do indexador.

OP - O que o setor da construção civil pode esperar de ajuda da Caixa neste ano?

PG - Mais financiamento, muito mais financiamento a taxa menores e uma parceria muito grande, mas uma parceria dos dois lados. Ou seja, as taxas vão ser menores, quanto maior for a relação entre a empresa e a Caixa. Isso é muito importante.

 

Bruna Damasceno

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