PUBLICIDADE

Bolsonaro se sai bem, mas Maia ainda preside a Câmara

01:30 | 27/05/2019
Rodrigo Maia, alvo dos protestos de ontem,
Rodrigo Maia, alvo dos protestos de ontem,

De muitas formas, manifestações registradas ontem por todo o País em defesa de Jair Bolsonaro (PSL) foram uma bela vitória para o presidente. Sucesso, em primeiro lugar, pelo próprio teor das mobilizações: antes de qualquer outra coisa, "protestos a favor" já tendem por si só a serem menores se comparados àqueles que, de fato, protestam contra alguma coisa. Outro fator que reduzia a expectativa de líderes do governo era o própria racha da direita em torno dos atos - que ficaram sem grupos expressivos como o Vem Pra Rua e o Movimento Brasil Livre (MBL), entre outros. Tinha tudo para dar muito errado.

O que se viu nas ruas, no entanto, foi uma adesão expressiva de pessoas de 143 municípios, nos 26 estados e no Distrito Federal. Os números não se comparam, é claro, às grandes manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT), mas serviram para mostrar que o bolsonarismo "puro" - aquele que está com o presidente e não abre - existe aos montes e está atento ao que ocorre hoje na política nacional. A própria ausência de uma liderança clara para os atos, em meio ao racha na direita e o afastamento anunciado pelo próprio presidente, acaba dando um "bônus" para a coisa. Quanto mais espontâneo soa, maior o valor.

No último mês, o governo Bolsonaro sofreu pressões e derrotas que colocaram em dúvida sua capacidade de articular a base parlamentar no Congresso. Em intervalo tão breve quanto, viu avançarem sobre a própria família investigações de suposto desvio de dinheiro envolvendo o filho Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). Para completar o pacote, recebeu também o retorno dos protestos de rua com grandes manifestações de estudantes contra cortes na educação. Caso os atos de ontem tivessem adesão pífia, seria difícil achar o que ainda sustentaria o presidente no poder.

O que se viu ontem foi o contrário. Palmas para Bolsonaro.

Porém, contudo, todavia

Mesmo que esteja satisfeito com a adesão popular expressiva que recebeu (sobretudo para um governo sob ataque em várias frentes), Bolsonaro não tem muito o que comemorar com as mobilizações de ontem. Ou pelo menos não deveria ter. Se contabiliza os atos de domingo como uma vitória pessoal de sua liderança, o presidente precisa responder também por um dos motes centrais dos protestos: o ataque direto ao Congresso. A quase demonização de bancadas que não batem continência automaticamente ao presidente, como o Centrão, ficou patente e deu o tom das manifestações por todo o País.

Uma das vozes mais influentes do Centrão na Câmara, o deputado Elmar Nascimento (DEM-BA) já deu ontem recado claro ao presidente, criticando em nota "radicalismos" de qualquer espécie e lembrando o governo que "ninguém governa sozinho". De fato, não serve muito ao presidente a recém-reforçada adesão das ruas se, na esteira, vier também um aumento das tensões entre o Planalto e deputados que ficaram na mira dos manifestantes. Ao menos que Bolsonaro esteja pensando em fechar o Congresso, o que não deve vir ao caso.

Diante de toda a polêmica, a pergunta de um milhão de reais segue a mesma que perdurou todo o dia de ontem: o que estará pensando sobre as manifestações o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ)? Na semana passada, o deputado perdeu a paciência e anunciou rompimento público com o líder do governo na Casa, Major Vitor Hugo (PSL-GO), após o militar divulgar uma charge tosca em que alguém ia "dialogar" com deputados levando um saco de dinheiro. Nos atos de ontem, Maia foi um dos principais alvos de bolsonaristas.

"Quem quer o Rodrigo Maia fazendo visita íntima e dividindo cela, levanta a mão", dizia, por exemplo, um carro de som repleto por aliados do presidente em Belo Horizonte (MG). Resta saber qual será a reação de Maia diante do lavar de mãos do governo a isso. Com Bolsonaro bem ou não, ele continua presidente da Câmara dos Deputados.

 

Carlos Mazza