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Ciro e a disputa na esquerda

2019-02-08 04:36:39
Árvores cortadas para obra paisagística na Beira Mar. Coisa de gênio
Árvores cortadas para obra paisagística na Beira Mar. Coisa de gênio

Novamente, um Ferreira Gomes foi até espaço da esquerda, bateu boca com militantes e hostilizou Lula. Desta vez foi Ciro, na Bienal da UNE, que repetiu a frase de Cid na campanha passada: "Lula está preso, babaca". Cada vez mais, o clã se distancia do PT e tenta disputar espaços da esquerda.

Antes de discursar, ele chegou a ser aplaudido e saudado aos gritos de "Cirão da Massa". Porém, essa batalha na esquerda tradicional - no caso da UNE, tradicionalíssima - é inglória. Depois das críticas ao petista e ao PT, foi chamado de "oportunista".

A postura de Ciro é ambígua. Ao tempo em que bateu em Lula, referiu-se a ele como "maior líder popular brasileiro". E, enquanto tentava demarcar sua diferença, usou o plural e se incluiu ao lado da esquerda que compunha a plateia ao falar da vitória de Jair Bolsonaro (PSL). "Fomos humilhantemente derrotados por essa estratégia", disse ao reforçar a crítica à condução petista.

Não está fácil para Ciro achar espaço na esquerda e longe do PT.

Negada usina de urânio no sertão

A negativa de licenciamento ambiental pelo Ibama para a usina de urânio em Itataia é a confirmação de algo que se desconfiava: os impactos e riscos de empreendimento do tipo. Urânio, vale destacar, é a matéria-prima que alimenta a energia nuclear. Envolve radiação. A estimativa era de que a usina produzisse 1,6 mil tonelada de concentrado de urânio e 1,05 mil tonelada de derivados fosfatados. Qual a garantia de segurança nesse manejo em pleno sertão cearense? Sempre houve razoável dúvida a esse respeito e a posição do Ibama dá razão às desconfianças.

A discussão vem no contexto da tragédia de Brumadinho. E, bem, a usina de Itataia também teria sua barragem de descarte de rejeitos. Conforme os dados do Consórcio Santa Quitéria, a projeção é de que os resíduos de urânio alcançariam 90 metros de altura. Já os resíduos do ácido fosfórico alcançariam 70 metros. Quais as garantias de que o Ceará de amanhã não seria as Minas Gerais de hoje? Ainda mais com rejeitos radioativos.

Conforme o jornalista Demitri Túlio mostrou ontem no O POVO, com exclusividade, o Ibama arquivou o pedido de licenciamento após constatar "ausência de dados sobre radiação", "subdimencionamento de riscos" e "falta de simulação computacional sobre dispersão de poluentes radioativos". Entre outros pontos. Acho assustador.

Obras passam por cima de árvores

Foram derrubadas 25 árvores na nova etapa da obra de requalificação da Beira Mar. Pelo menos outras 15 serão cortadas. O trabalho é realizado pela Autarquia de Urbanismo e Paisagismo de Fortaleza, a Urbfor. Isso mesmo. Em Fortaleza, uma entidade que leva no nome as palavras urbanismo e paisagismo se dedica a cortar árvores na orla.

Sinceramente, não sei como, numa obra numa área de lazer, na orla de uma cidade turística, os gênios da engenharia não conseguem planejar uma obra sem derrubar dezenas de árvores. Francamente. A impressão é de quem nem há esforço para evitar o corte. E isso é para construir um calçadão. Não é para abrir uma autoestrada. Pergunta aos turistas que andam na Beira Mar se eles acham que Fortaleza deveria ter mais árvores.

O secretário Ferruccio Feitosa disse, na rádio O POVO CBN, que serão plantadas duas mil árvores. Numa conta simples, parece bom negócio. Faço, todavia, duas ponderações. Quando construíram o binário nas avenidas Santos Dumont e Dom Luís, também cortaram árvores como quem dá milho pra galinha. A promessa era de que seriam transplantadas e replantadas no local. Porém, as árvores retiradas foram levadas para o horto municipal. Foram retiradas da Aldeota e levadas para o Passaré.

Já o histórico de replantio está repleto de gravetos que não vingam. Cortam árvores crescidas, consolidadas, e substituem por mudas. Exemplo é a Praça da Paz Dom Hélder Câmara. No calorão da Praia do Futuro e com arborização pífia, ela tem rarefeito uso quando a área é mais frequentada. À noite, é a insegurança a limitadora do uso do espaço no qual muito se investiu e pelo qual muito se esperou para ficar pronto.

Árvore é vida para os espaços públicos. Valoriza-os, deixa-os mais bonitos, agradáveis e estimula o uso. É incrível como erros se repetem e lições não são aprendidas em Fortaleza.