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Anúncios podem representar riscos para política externa do Brasil

| NOVO GOVERNO | O mais recente anúncio foi feito por Ernesto Araújo, futuro chanceler, afirmando que o Brasil não irá permanecer em acordo internacional sobre migração
01:30 | Dez. 12, 2018
Autor O POVO
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Desde as eleições, falas do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) sobre medidas a serem adotadas na política externa já causavam reações nacionais e internacionais. Durante o governo de transição, outras declarações do capitão reformado, de aliados e de futuros ministros - incluindo o diplomata Ernesto Araújo, que assumirá o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) -, são recebidas sob apreensão.

 

"A gente não sabe ainda quem formula a política externa, se é o filho dele (o deputado federal Eduardo Bolsonaro), se vai ser o Itamaraty, se vai ser o Bolsonaro, está uma coisa meio no ar", critica o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Pio Penna. Segundo ele, apesar de ser complicado fazer projeções, "as primeiras declarações foram muito desastrosas".

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A mais recente medida anunciada por Ernesto foi que o Brasil se dissociará do Pacto Migratório, firmado por 160 países na última segunda-feira, 10. O acordo define diretrizes para uma política migratória internacional. "A imigração não deve ser tratada como questão global, mas sim de acordo com a realidade e a soberania de cada país", disse Araújo no Twitter. Segundo ele, por esse motivo o Brasil deve sair do acordo em 2019. Agências da ONU lamentaram a decisão.

 

Entre as atitudes que geraram reações internacionais estão as promessas de "ruptura com o Acordo de Paris" e a transferência da embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Em ambas, o futuro governo recuou, embora no caso da mudança de embaixada Eduardo Bolsonaro já tenha afirmado que "não é uma questão de se, mas de quando".

 

"Eu acho que eles estão meio perdidos", acredita Pio Penna. "Mostrou um governo que não tinha um pensamento claramente delineado da inserção internacional do Brasil. Não sabem o que fazer. (Agora) Se fizerem o que estão falando, o que eu duvido muito, isso será desastroso para o País", defende.

 

Caso fossem efetivadas, as medidas teriam impacto no comércio exterior brasileiro. Há riscos de sanções por parte de países que integram o Acordo de Paris e do mercado árabe, um dos principais destinos de exportações brasileiras. A Liga Árabe, que reúne 22 nações da região, enviou carta a Bolsonaro alertando que a mudança da embaixada brasileira para Jerusalém pode prejudicar a relação do Brasil com os países.

 

Setor que seria mais atingido por atritos no comércio exterior brasileiro, o agronegócio acredita não haver motivos para receio das relações internacionais do próximo presidente. "O que a gente espera é um posicionamento pragmático quanto às relações comerciais", afirma Lígia Dutra, superintendente de Relações Internacionais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Outros posicionamentos do novo governo podem, contudo, contribuir com o crescimento do setor, acredita Dutra, como a tendência a uma economia liberal ou a priorização de acordos bilaterais.

 

Medidas anunciadas para o governo Bolsonaro

 

1. EUA

 

Bolsonaro disse que governo terá alinhamento com a política externa de Donald Trump, presidente dos EUA. O futuro chanceler, Ernesto Araújo, afirmou que "o céu é o limite" para as relações entre os dois países, enquanto Eduardo Bolsonaro fez, em novembro, viagem para iniciar uma relação do novo governo com Trump.

 

2. ISRAEL

 

O novo governo anunciou mudança da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. A transferência significaria um reconhecimento da cidade sagrada como pertencente a Israel, contrariando decisão da ONU. A decisão pode atrapalhar as relações comerciais do Brasil com países árabes.

 

3. MIGRAÇÃO

 

Na última segunda-feira, o Brasil assinou, junto a outros 160 países, o Pacto Migratório. Contudo, o futuro chanceler afirmou no mesmo dia que o Brasil "se desassociará do Pacto." O texto foi finalizado em julho, depois de 18 meses de negociações, por todos os 193 países das Nações Unidas, exceto os EUA, país contrário à medida.

 

4. CLIMA

 

Firmado em 2015, o Acordo de Paris é um compromisso discutido entre 195 países para minimizar consequências do aquecimento global. Uma "ruptura" com o acordo foi citada por Bolsonaro depois de eleito. Contudo, o futuro ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que "nós não devemos deixar o acordo".

 

5. ONU

 

Bolsonaro recomendou que a Conferência do Clima da ONU, em 2019, não fosse sediada no Brasil e afirmou que não gostaria de anunciar aqui, durante a conferência, a "possível ruptura" do Brasil com o Acordo de Paris. O futuro chanceler já declarou acreditar que as mudanças climáticas são um "dogma marxista".

 

6. MERCOSUL

 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o "Mercosul não será prioridade" e criticou o fato do bloco ter sido feito "totalmente ideológico". Já o novo chanceler, Ernesto Araújo, afirmou que a estrutura do Itamaraty irá precisar passar por mudanças para facilitar relações bilaterais.

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