Por onde anda a tolerância? 

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Por onde anda a tolerância?

2018-10-12 01:30:00

Na madrugada da última segunda-feira, 8, o mestre de capoeira Moa do Katendê bebia com um amigo quando os dois se envolveram numa discussão com uma terceira pessoa. Enquanto o mestre e o amigo defendiam Fernando Haddad (PT), o terceiro homem defendia Jair Bolsonaro (PSL). A discussão foi encerrada com doze facadas desferidas contra Moa do Katendê. Não houve um depois para ele. A intolerância política transformou-se em morte.

 

O presidenciável Jair Bolsonaro também foi vítima de atentado. No dia 6 de setembro, enquanto participava de ato de campanha, foi atingido por uma facada no abdômen. Ficou internado durante três semanas e passou por diversas cirurgias. Teve alta apenas uma semana antes da votação do segundo turno.

 

Nas redes sociais e nas conversas, se avolumam casos e relatos em que a polarização política transformou-se em violência efetiva. A discordância política abriu espaço para o ódio explícito ao que pensa diferente. Ainda faltam pouco mais de duas semanas até o segundo turno. A tendência, dizem especialistas, é que os números continuem em uma crescente.

 

Mas, por que tanto ódio? "O ódio é um dos afetos que mais mobilizam, talvez mobilize mais até do que o amor. É uma das paixões que mais mobilizam o ser humano", explica a psicanalista Lia Silveira. Na opinião dela, houve incitação a tudo isso.

 

Para o cientista político César Barreira, professor da Universidade Federal do Ceará e coordenador do Laboratório de Estudos da Violência, a sociedade brasileira tem muita dificuldade de dialogar. "Nós resolvemos os conflitos sociais não com diálogo, mas com a violência. O momento eleitoral é o momento propício (para) a exacerbação do conflito".

 

Para Lia Silveira, o aumento desse ódio também pode ser justificado por uma legitimação que parte dos agressores sente pela figura de um dos candidatos. "(Há) Um candidato que legitima esse ódio. (Com) Uma série de propostas que vêm dizer no plano social que é legítimo apoiar a eliminação do outro como alguém que eu não suporto, como alguém que é diferente de mim mesmo", alerta.

 

Reverter a intolerância que se manifesta no País não é tarefa fácil. O primeiro passo indicado pelo professor de Psicanálise da Universidade Federal de Minas Gerais, Fábio Belo, é pedir que os candidatos reforcem a primazia do pacto de não-violência.

 

Para César Barreira, o diálogo é o caminho. "Nós temos que aprender a administrar o conflito, (o que) está muito ligado a uma questão de maturidade, de trabalhar com a cultura do diálogo".

 

É no diálogo que a psicanalista Lia Silveira também deposita as esperanças de mudar esse quadro de intolerância. "Em primeiro lugar, é a gente conseguir se ouvir. Eu acho que é preciso a gente permitir que essas pessoas expressem os seus medos, apontando para elas que é possível sim o tratamento das diferenças a partir da lei", projeta.

 

O acolhimento e a escuta são os objetivos dos psicanalistas da clínica Aletheia. Durante todos os sábados de outubro, a partir de amanhã, eles estarão das 8 às 16 horas atendendo aqueles que sentem necessidade de acompanhamento. Os atendimentos não terão preços mínimos, o paciente poderá pagar aquilo que puder, explica a psicanalista Joselene Monteiro. "Tem muita gente que não está em atendimento clínico, mas que diante dessa situação acaba tendo essa demanda. Eu acho que isso também é um ato político, a gente disponibilizar a nossa escuta para as pessoas que estão sendo afetadas diante desse caos social", acredita.

 

Alguns casos da violência

 

1 MOA DO KATENDÊ

Romualdo Rosário da Costa, 63, foi assassinado a facadas, em Salvador. De acordo com o Boletim de Ocorrência, o crime ocorreu após uma discussão política por volta das 3 horas da última segunda-feira, 8. O barbeiro Paulo Sérgio Ferreira de Santana, 36, autor das 12 facadas que mataram o mestre de capoeira, foi preso em flagrante.

 

2 BOLSONARO

No dia 6 de setembro, Jair Bolsonaro foi esfaqueado no abdômen durante um evento de campanha, em Juiz de Fora (MG). O autor do ataque foi preso na hora e identificado pela polícia como Adelio Bispo de Oliveira. O candidato, que passou por diversas cirurgias, teve alta no dia 29 de setembro, após três semanas internado.

 

3 CASO EM PORTO ALEGRE

Em Porto Alegre, uma jovem de 19 anos relatou ter sido atacada na noite da última segundafeira, 8. A vítima disse que voltava para casa quando, ao descer do ônibus, foi seguida por três homens, agredida e teve a barriga marcada com traços semelhantes a uma suástica — símbolo do nazismo. Ela teria sido vítima de homofobia por usar adesivo com a bandeira do arco-íris e a inscrição #Elenão, referência ao movimento de mulheres contra Bolsonaro.

 

4 EM FORTALEZA

No último domingo, 7, um grupo de apoiadores do presidenciável Jair Bolsonaro comemorava o resultado da votação, quando um motorista desceu de um veículo e iniciou um atrito com os que já se encontravam no local. Foi registrado em vídeo o momento em que o motorista jogou o carro para cima dos que estavam na praça, enquanto o veículo era atingido por capacetes e pedras. Uma equipe policial prendeu o condutor do veículo (que teve um vidro trincado na confusão) e constatou sinais de embriaguez. No carro, havia adesivo de outro então candidato à Presidência da República.

 

5 NO PARANÁ

Um universitário foi agredido a golpes de garrafa e chutes na última terça-feira, 9. Na hora do ataque, o rapaz utilizava um boné do  Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O Diretório Central Estudantil (DCE) afirma que eles gritavam “Aqui é Bolsonaro!” ao cercar o estudante.

 

Luana Barros

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