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A política em 2018: O que não podemos repetir de 2017

01:30 | 02/01/2018

Se a tradicional promessa de fazer diferente, proclamada repetidamente nas viradas de ano, chegar à política brasileira, há muito de 2017 que não deve se repetir neste ano. A análise é de especialistas que relataram ao O POVO os erros do “ano velho” que podem, mas não deveriam, adentrar 2018 e aprofundar crise marcada pelo descrédito do povo com os políticos e as instituições democráticas do País.


“Em 2017, eu vi uma agenda negativa e destrutiva, de completa aversão às regras da vida política e daquilo que deve reger a constituição brasileira”, lamenta o professor de ciência política do Ibmec de Minas Gerais, Oswaldo Dehon.


Pessimista, ele defende que o principal fato que deve ser deixado para trás é a “falta de harmonia e de compreensão dos papéis das instituições brasileiras, especialmente do Supremo Tribunal Federal (STF), da Câmara dos Deputados e Senado e do presidente da República”. De acordo com Dehon, essa “ausência de compreensão e a tentativa de cada um de influir nos assuntos dos outros geraram constante tensão na vida política brasileira”.


O ano que passou também foi perpassado por denúncias de políticos envolvidos em casos de corrupção, prisões, delações premiadas e atuação forte do Poder Judiciário, que chegou a ser acusado de “ativismo”. As prisões, de acordo com Dehon, “devem continuar, mas de forma a fazer justiça. não numa atuação política”.

 

Votos de ano novo


A Operação Lava Jato, cita o historiador Agileu Gadelha, deve ter continuidade neste ano, mas com maior preocupação com a “parcialidade” das investigações. Além disso, o professor da Uece espera que “extremismo” que marcou opiniões, discussões e projetos políticos fique em 2017.


Os especialistas também destacam as matérias aprovadas por um Congresso Nacional com boa parte dos representantes citados em listas de investigação e levadas a cabo pelo presidente Michel Temer (PMDB), com rejeição recorde de 95%. Para 2018, a esperança é de que as mudanças votadas sejam do interesse do povo.


Os votos do doutor em ciência política Josênio Parente para o País é que os partidos se fortalecessem em detrimento da personalização aprofundada no ano que passou. “Os partidos políticos precisam ser o instrumento da representação, e não as pessoas. Esse equívoco compromete a democracia”.

 

O que deve ser mantido no ano novo


A avaliação da política nacional de 2017 não é só pessimista. A crise política era necessária, segundo o cientista político Josênio Parente. “Esse é o momento de inflexão de uma democracia que ainda é jovem, que precisa de consolidação. É uma crise esperada para quem conhece o processo democrático”, avalia.


O “ano velho” também não foi um ponto fora da curva, acredita o historiador Agileu Gadelha. “A história é cíclica. O que nós temos são momentos de grande turbulência comparando com outros anos, mas a história se renova a cada situação”, diz. Para o ano que chega, há também o que pode ser mantido - tal qual disse, em outro contexto, o presidente Michel Temer (PMDB).


“A democracia teve um ajuste, as pessoas começaram a perceber que a participação do povo é decisiva e se interessaram mais, acompanharam mais o processo político. A participação popular vai ajustando para criar um estado de direito cada vez mais forte”, acredita Parente.


Foi também um ano com protestos, movimentos, participação social na política, o que não deve ficar no passado, segundo Gadelha. “As pessoas não esmoreceram, elas perceberam a importância de lutar pelos seus direitos”, acredita.


Se 2018 tem todos os ingredientes para ser turbulento, devido às eleições, o conselho da psicóloga Kariliny Martins para o cidadão comum é “ficar atento aos excessos” para evitar tocar os extremos e trazer prejuízos para sua vida. Manter o respeito com o pensamento do outro e evitar “guerras” é o recomendado. “Não confunda defesa de opinião com ofensa: a guerra contra nós mesmos pode ser ainda pior que a guerra política”, diz Kariliny.

 

 

Uma eleição disputada

 

O primeiro pleito presidencial após o impeachment de Dilma Rousseff, duas denúncias contra Michel Temer e um ano e meio de vazamento de áudios suspeitos tende a ser um dos mais disputados da jovem democracia brasileira.


A continuidade da Lava Jato

 

A Operação Lava Jato deve continuar, só não se sabe se com o mesmo fôlego. Para 2018, espera-se que as denúncias não atinjam só o Congresso Nacional, mas também as Cortes judiciárias.


A força das fake news


Termo que ganhou força em 2016 com a eleição do republicano Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, a tendência é de que as notícias falsas sejam estratégia política fortemente usada nas eleições deste ano.


O embate dos extremos

 

O ano de eleição disputada e possível briga entre o ex-presidente Lula e o deputado federal Jair Bolsonaro influenciam um cenário que já se apresenta dividido entre direita e esquerda no País, que vem se intensificando desde o impeachment.


O perdão aos “golpistas”


O tal “perdão aos golpistas” dito por Lula em 2017 vai resultar em alianças PT-PMDB em vários estados do País, inclusive no Ceará se aproximação entre o governador Camilo Santana (PT) e o senador Eunício Oliveira (PMDB) não for frustrada por um novo fato. O resultado é uma eleição que repetirá, em certos termos, 2014.


Mais interesse na política

 

2017 já foi um ano marcado por mais interesse da população em geral pela política partidária. O acompanhamento do noticiário recheado de denúncias de corrupção colaborou, assim como a discussão e aprovação de reformas polêmicas no Congresso Nacional. Em 2018, o cenário tende a se intensificar com a Lava Jato, as eleições e a reforma da Previdência.

 

 

O fortalecimento da direita

 

O fortalecimento do pensamento e de políticos que representam a direita no País não devem ficar só em 2017. Com as eleições, candidatos com essa linha de pensamento devem despontar. Além disso, projetos como o que revoga o Estatuto do Desarmamento, em tramitação no Senado, de interesse dessa ala, devem ser retomados este ano.


A dúvida Lula


Com julgamento marcado para o dia 24 de janeiro, Lula já iniciará o ano nos holofotes. A dúvida é, se condenado, insistirá na candidatura e se a Justiça vai permitir que ele siga adiante. Caso não, o PT terá de escolher se lançará outro nome ou apoiará um candidato de outro partido.


A reforma da Previdência


Discussão e votação da reforma da Previdência estão marcadas para retomar em fevereiro. O que não se sabe é se o presidente Michel Temer, que afirma que não vai mais abrir mão em nenhum ponto, terá força para aprovar a matéria.


O último ano de Temer


Michel Temer (PMDB) entra no seu último ano como presidente da República — se levar a cabo promessa de que não se candidatará ao cargo — com o desafio de aprovar a reforma da Previdência e fortalecer o PMDB para as eleições.

Letícia Alves

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