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A política da traição

2017-10-14 01:30:00

A traição como extensão da política é talvez tão antiga quanto o patrimonialismo tupiniquim, esse mesmo que chegou com as caravelas e aqui vingou em solo fértil quando Estado, igreja e a aristocracia selaram um promíscuo casamento com comunhão total de bens. No Brasil, trai-se com naturalidade espantosa, e nenhum adversário terá coragem de atirar a primeira pedra quando o assunto é apunhalar o outro pelas costas. Na esteira da Lava Jato, por exemplo, as traições pululam: de Funaro a Cunha, Delcício a Lula, Sergio Machado a toda uma banda do PMDB. Na província do Siará Grande, então, o cenário não é muito diferente. Aqui, os políticos têm se notabilizado por contrariarem o que disseram há não muito tempo. Caso de Cid e Ciro Gomes em 2010, quando aplicaram rasteira em Tasso Jereissati (PSDB), então candidato ao Senado, a ponto de o tucano, uma raposa da política, anunciar melancolicamente que se aposentaria para cuidar dos netos. Hoje senador e presidente interino social-democrata, o ex-governador do Estado por três vezes ameaça candidatar-se novamente à cadeira ocupada pelo petista Camilo Santana. O movimento, ainda não confirmado, tem despertado ressentimento no seio dos Ferreira Gomes, que veem traição de Tasso.

 

Os tempos, porém, são mais que propícios a esse tipo de gincana, que faz lembrar um poema de Drummond. Mal adaptado à realidade local, ficaria assim: Cid que amava Ciro que amava Tasso que amava Eunício que amava Luizianne que não morria de amores por Camilo. Cid e Ciro brigaram com Tasso, que se aliou a Eunício, que perdeu de Camilo, que flerta com Eunício e Tasso ao mesmo tempo. No final das contas, é possível que, depois de tantas traições de parte a parte, ninguém tenha condições de levantar o dedo e apontar, com espanto: até tu, Brutus!

 

Henrique Araújo, editor-adjunto de Conjuntura

 

Adriano Nogueira

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