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Em meio a crise, siglas mudam de nome de olho em 2018

Enfrentando desgaste político, partidos têm mudado os seus nomes, adotando conceitos que expressam um novo posicionamento. Para analista, a prática, entretanto, revela o mesmo modo de operar por trás das legendas

01:30 | 08/07/2017

Como forma de driblar a crise política, partidos no Brasil se inspiram em tendência de substituir siglas por conceitos. A estratégia, um modo de se renovar, é traçada de olho nas eleições de 2018.

Depois de o PTN ter se transformado em Podemos, pelo menos mais duas legendas promoveram essa alteração. Para analista, a onda é tentativa de “repaginação” para se posicionar em meio às turbulências.

O caso do presidente francês Emmanuel Macron, do En Marche! (“Em Marcha!”) é o exemplo máximo da prática, interpreta Renata Abreu, avalia do Podemos. “Tem um discurso muito similar ao nosso de superação de debate de direita e esquerda. É um movimento mundial”, afirma a deputada federal.

A proposta do partido, explica a parlamentar, é de “empoderar” eleitores no partido, criando mecanismo para “qualquer cidadão propor um projeto de lei” em plataforma digital, que, “sendo constitucional e não atentando contra princípios básicos”, terá o “compromisso do partido” de protocolar no Congresso Nacional.

Segundo Rodrigo Marinho, presidente estadual do PSL, a ideia presente na mudança para o Livres, novo nome da sigla, é “começar a defender ideologias” e reforçar o caráter liberal do partido, além de cortar laços com o termo “social-liberal”, “mais visto à esquerda”. A legenda pretende também engrossar o coro contra a intervenção estatal – tendência política crescente no Brasil.

“Vamos defender a liberdade como princípio, agregando conservadores e libertários, com o foco central de dizer que a melhor tecnologia para resolver (o Brasil) não é o estado”, conta.

Iniciativa oposta à do Podemos, que, conforme Renata Abreu, quer se distanciar de ideologias. “Não acreditamos nisso. Queremos trazer os elementos que são bons sem atrapalhar com ideologia”, defende.

“Debaixo dos discursos”, avalia Bruno Reis, professor de ciência política da UFMG, “encontramos as velhas posições de sempre”. “Um partido, em qualquer contexto, é uma coalizão de interesses. A tendência de um slogan parece ser mais um catch do que alinhamento ideológico. Estão tentando se reposicionar”, vê Reis.

A mudança se dá, de acordo com o professor, no “tsunami da vida partidária brasileira”, envolta por crises e desconfiança, o que torna “compreensível a preocupação”.

“Mesmo mundo afora, reflete uma quebra na identificação partidária, no baixo percentual de população que diz defender esse ou aquele partido. Tentam começar a ‘reinvenção’ pelo nome.”

 

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Militância

Para o professor Bruno Reis, outro aspecto da tendência é o enfrentamento à escassez de militância e engajamento partidário. “Quando elas começam a fugir das velhas identidades, existe a tentação de oferecer um slogan. Talvez seja honesto, mas pode agravar ainda mais o quadro: se você é puramente slogan, pode acabar por produzir uma representação desvertebrada, errática”, avalia. Ele aponta, ainda, o “desafio da internet”, que afasta admiradores do “engajamento real” e cria alinhamentos “indisciplinados”. “Não vejo saída, nem essa, de capitalizar o comodismo e pegar o pessoal de volta”. 

 

PMDB para MDB

No olho do furacão, outro partido que tentará mudar de nome é o PMDB. Anúncio foi feito em dezembro de 2016 pelo presidente da sigla, Romero Jucá, mas nenhuma posição ainda foi tomada.

 

PTdoB no TSE

O pedido de alteração de PTdoB para Avante tramita no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A alteração segue uma nova reformulação no estatudo, que deve ser aprovado pelo órgão.

 

DANIEL DUARTE