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VERSÃO IMPRESSA

O poeta, o gatuno e o gravador no bolso

2017-05-19 01:30:00
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O grampo veio para ficar. Depois de Marcelo Calero, ex-ministro da Cultura responsável pela queda de Geddel Vieira Lima, e Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro que complicou a vida de metade do PMDB, o gravador fez das suas novamente ao registrar uma conversa entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, da JBS.


Sob o farfalhar do tecido do paletó do executivo e do som da Rádio CBN, cujo noticiário o delator ouvia antes de encontrar o peemedebista no Palácio do Jaburu, em meados de março, a gravação sugere uma ação entre amigos de longa data.


Nela se entreouvem sussurros e negociatas. Tratam de escaramuças como trivialidades num chá da tarde. De passagem, mencionam-se a compra de um juiz e o pagamento de pendências a Eduardo Cunha, o ex-presidente da Câmara dos Deputados preso em Curitiba há quase um ano.


É nesse tom familiar, entre a crônica de costumes e a conversa ao pé do balcão, que, por exemplo, o delator segreda a Temer que tem se empenhado em manter uma boa relação com Cunha, a quem não deve mais nada, e com um procurador da República cujo nome não revela, apenas que é um "delator" dentro da força-tarefa da Lava Jato.


Ironia, claro, referir-se a um agente da Justiça como delator, papel que caberia depois ao próprio Joesley, um nome improvável num roteiro igualmente impensável. Mais ou menos como o assaltante que chama a vítima de vagabunda antes de sumir com o celular roubado. Uma dessas cenas que atestam: o Brasil é, por si, uma jabuticaba, fruto tipicamente nacional.


Inevitável também lembrar dos floreios de linguagem de Temer quando do auge da crise que se abateu sobre o governo Dilma.

À época, o então vice enviou à petista um queixume epistolar no qual narrava pequenos incidentes da vida palaciana, entre os quais uma recusa - considerada por ele uma grosseria - a que participasse de um jantar com autoridade estrangeira. Num muxoxo, Temer fez saber que estava insatisfeito e que, como consequência, sentia-se decorativo. Um ornato.


Dois anos e alguns meses depois, o mesmo Michel - poeta bissexto e um coreógrafo de mãos - é flagrado em amistoso encontro com um empresário que confessou voluntariamente haver roubado e prometeu devolver a bagatela de R$ 220 milhões aos cofres públicos do País em troca de liberdade e de entregar seus comparsas.


Entres eles, estaria o próprio Temer, agora colhido em casa, no Jaburu, espaço do qual até tentou escapar quando se mudou para o Alvorada, mas ao qual voltaria depois sob a desculpa de que a antiga morada de Dilma era assombrada por fantasmas.


Foi precisamente onde mais se sentia à vontade que Temer foi captado. Sua voz, retida no áudio de baixa qualidade, é um fiapo, sim, e só se encorpa a custo. Como se Temer temesse o inconfessável: tratava ali de assuntos não republicanos com um acusado que fez desfilar diante de si um rosário de malfeitos. Na mansuetude que lhe é habitual, o presidente assentiu para tudo. E, agora, pode cair por isso.

 

Henrique Araújo

EDITOR-ADJUNTO DE CONJUNTURA

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Adriano Nogueira

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